António Luís fala da sua experiência pioneira no Windsurf, no Faial

"Realizámos a 1ª Prova nos Açores, que consistiu numa travessia Horta/Madalena"

O Windsurf sempre foi uma modalidade com grande implantação no Clube Naval da Horta (CNH) e na ilha do Faial. No CNH, ao longo dos anos, esta Secção viveu altos e baixos, encontrando-se, actualmente, numa fase de revitalização.

Esse novo fôlego fica a dever-se ao empenhado esforço do Grupo de Trabalho – constituído por Jorge Fontes, Flávio Pereira, João Medeiros e Rute Matos – que tem vindo a apostar fortemente nesta modalidade. Depois de um Curso de Iniciação, muito bem sucedido, decorre agora um de Aperfeiçoamento.

No âmbito do Programa Comemorativo do 70º Aniversário do CNH – ocorrido no dia 26 de Setembro último – o Grupo de Trabalho da Secção de Windsurf do Clube Naval da Horta promoveu e organizou o Treino dos Veteranos, que foi deveras interessante. Recordemos o que disse, a propósito, Flávio Pereira, porta-voz desse Grupo de Trabalho: “Quando temos pessoas que há mais de 30 anos não praticavam Windsurf e o voltaram a fazer (e muito bem!) passado todo esse tempo, só podemos afirmar que foi um verdadeiro sucesso!”

António Luís foi um desses Veteranos que aceitou o repto para reviver a sensação de praticar este desporto. Nesse sentido, o Gabinete de Imprensa do CNH convidou-o a recordar como tudo começou no Windsurf e o pioneirismo das competições nos Açores, que começaram precisamente na ilha do Faial.

“Éramos totalmente autodidatas!”

pranchas de antonio luis

As primeiras pranchas de António Luís

 

- Gabinete de Imprensa do CNH: Quando começou a praticar Windsurf?

- António Luís: Em 1978, o meu amigo João Carlos Fraga – introdutor do Windsurf nos Açores – comprou uma prancha Windsurfer e, no dia 3 de Janeiro de 1979, fomos, com o irmão dele, o José Fraga, para Porto Pim, ver como era. Lembro-me de que a água estava gelada. E foi aí que, pela primeira vez, pus os pés numa prancha de Windsurf.

Escusado será dizer que não consegui andar. Fartei-me de cair. O Zé Fraga, mais habituado a pranchas, pois já fazia surf, conseguiu dar umas voltas. Para mim, foi ele o primeiro Faialense a ter sucesso na prancha.

joao carlos fraga com suas pranchas windsurfer e vela

João Carlos Fraga com as suas pranchas, incluido a Windsurfer e a Vela

 

- Gabinete de Imprensa do CNH: Porquê esta modalidade e não outra?

- António Luís: A minha geração é a geração das experiências. Naquela época, tudo estava a nascer e queríamos experimentar tudo. Esta era a modalidade da época.

“Nós é que fizemos os manuais para as gerações vindouras”

- Gabinete de Imprensa do CNH: Quem lhe ensinou?

- António Luís: Um livreco francês, uns desenhos numa revista e muita imaginação, além da troca de experiências com o Zé e o João. Éramos totalmente autodidatas! Nós é que fizemos os manuais para as gerações vindouras. Convém dizer que não fui um expert na modalidade; nunca fiz competições, era só “just for fun”. Tive amigos que começaram depois, e outros mais novos, e que se tornaram especialistas. Importa referir que a modalidade começou a massificar-se em 1980, depois de umas formações dadas pelo francês Le Moin, cujo pai tinha uma habitação de férias no Faial. Ele ministrou uma formação, trouxe umas pranchas que emprestou e aí deu-se o salto da elite para a massificação. Na época, para os jovens de 15 anos, foi um sucesso. Fez-se a 1ª Prova nos Açores, que consistiu numa travessia Horta/Madalena, realizada por altura da Semana do Mar. Foi um sucesso, tendo mesmo sido transmitida pela RTP/Açores. No ano seguinte, já existiam mais de 20 pranchas nos Açores.

semana do mar

Aspecto de uma competição por altura da Semana do Mar, na década de 80

 

- Gabinete de Imprensa do CNH: O que representa para si esta modalidade?

- António Luís: Naquela altura, esta modalidade representou a liberdade, a experimentação e a descoberta. Foi viciante!

- Gabinete de Imprensa do CNH: Quanto tempo praticou?

- António Luís: Cerca de 14 anos – desde que pus os pés pela primeira vez na prancha até 1992/1993 – mas não de forma consecutiva, pois só em 1988 é que comprei a minha prancha.  

festa praia final duma competicao

Convívio na Praia de Porto Pim, no final de uma competição, nos anos 80

 

- Gabinete de Imprensa do CNH: Por que parou?

- António Luís: Na época já tinha 33 anos e esta modalidade constitui um desafio constante. Cada vez se quer andar mais rápido e com ventos mais fortes; isto não acaba. Começaram a aparecer as pranchas funboard, mais velozes, mais radicais e, como tudo tem um princípio e um fim, foi o fim no que diz respeito ao Windsurf, tendo, posteriormente, me dedicado a outras actividades náuticas, o que ainda acontece na actualidade, como é o caso da Vela de Cruzeiro e dos Botes Baleeiros.

“Senti que tinha outra vez 20 anos!”

- Gabinete de Imprensa do CNH: Após vários anos de interregno, foi convidado a retomar esta atividade. O que sentiu?

- António Luís: Não foi bem para retomar, mas, sim, para dar uma volta.

Quando acabei o meu percurso no Windsurf, vendi as pranchas, mas guardei o arnês, e ainda bem! Quando, no dia 16 de Setembro último, saí de casa para participar no Treino dos Veteranos, a minha filha disse-me: “Não penses que tens 20 anos”, mas a verdade é que, quando pus novamente os pés na prancha, senti que tinha outra vez 20 anos. Até nos desequilíbrios (risos)!

“Confesso que gostava de experimentar as pranchas Fórmula”

- Gabinete de Imprensa do CNH: Vai continuar ou foi um evento isolado?

- António Luís: Foi um acto isolado, mas confesso que despertou em mim o “vírus” do Windsurf e agora gostava de experimentar – mas só experimentar – as pranchas Fórmula.

- Gabinete de Imprensa do CNH: Quem aprende nunca esquece?

- António Luís: É verdade! A cabeça quer, mas o físico já não corresponde da mesma maneira.

manuais windsurf

Manuais utilizados por António Luís e pelos colegas da modalidade no Faial

 

- Gabinete de Imprensa do CNH: O que acha da revitalização que está a ser feita pelo Grupo de Trabalho da Secção de Windsurf do CNH?

- António Luís: É interessante ver que existe novamente no Clube Naval da Horta um grupo de jovens (adultos) interessados em realizar coisas, tal como aconteceu na minha juventude. E aproveito esta oportunidade para, de forma pública, lembrar pessoas que, pelo seu dinamismo, se destacaram nesta Secção. Foram eles os Pioneiros na participação e realização de eventos como Campeonatos Locais, Regionais e Nacionais na ilha do Faial:

- Luís Gaspar, que é Comandante de Linha Aérea, residente nos EUA.

- Paulo Gonçalves, Professor de Educação Física, na Escola Secundária Manuel de Arriaga (ESMA), residente na Horta.

- Armando Castro, Director da Marina da Horta, residente na Horta.

- Hildeberto Luís, Mestre na Barcadouro (Rio Douro), residente no Porto.

- Tozé Goulart, Comandante de jactos privados, residente nos EUA.

- Jorge Gonçalves, Especialista em Informática, residente em Lisboa.

- Luís Gonçalves, Fotógrafo Profissional, residente em Lisboa.

- José Serpa, Professor do Ensino Secundário, residente em Lisboa.

- José Gonçalves, Técnico da Câmara Municipal da Horta, residente na Horta.

- Luís Mendonça, já falecido.

- João Carlos Fraga (com as suas “Expression Session” da Mistral) já falecido.

- José Fraga, retirado da TAP, residente em Ponta Delgada.

Estes foram os pioneiros na forma moderna como agora se vê esta modalidade. Nunca esperaram pelos outros para organizar actividades; atiraram-se e fizeram. Jamais disseram “ninguém faz nada”. Quando queriam, faziam. Foram, no seu tempo, irreverentes, e considero que ainda o são.

Nessa altura realizaram-se Campeonatos Locais, Regionais e Nacionais, intercâmbios com a Madeira, que também estava a iniciar-se nesta modalidade. Nessa época, estávamos em igualdade de circunstâncias com outras zonas de Portugal. Aliás, às vezes até estávamos num patamar mais evoluído!

antonio luis 1

“Esta modalidade constitui um desafio constante. Cada vez se quer andar mais rápido e com ventos mais fortes”

 

- Gabinete de Imprensa do CNH: Na sua opinião, o actual Grupo de Trabalho da Secção de Windsurf do CNH está no caminho certo?

- António Luís: Julgo que é este o caminho, ou seja, mostrar a modalidade na sua versão de “fun”, que é como quem diz, divertimento. E seguir os passos dados em 1980: proporcionar formação aos jovens.

- Gabinete de Imprensa do CNH: Trata-se de uma modalidade com grande implantação no CNH e na ilha do Faial?

- António Luís: Quer se queira quer não, esta é e será sempre uma modalidade de elite, e quando digo de elite refiro-me a um grupo restrito, o que não deve ser confundido com rico, embora tenhamos excelentes condições para praticar Windsurf nas suas vertentes de ondas, longas distâncias ou competições entre bóias.

windsurf treino veteranos aniv cnh 55 2017

António Luís no Treino dos Veteranos, a 16 de Setembro de 2017

Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.