Festival Náutico 2017: Entrevista ao último trancador de baleia dos Açores

“Entro aqui (CNH) como se fosse em minha casa. Gosto muito desta gente”

José Lisandro, ou melhor, José Raimundo Xavier, nome da pia, é uma figura castiça que conversa e graceja com toda a gente.

O avó, que era da Ribeira Quente, ilha de São Miguel, foi, com 14 anos, trabalhar para casa do tio chamado Lisandro. E foi daí que surgiu o nome pelo qual José Raimundo é famosamente conhecido. Mas esta história de nomes trocados ou por outra, todos diferentes, é uma tradição familiar, digamos assim, pois o pai, João Bernardo Mendonça, até aos 50 anos nunca teve filho algum com o seu sobrenome.

Quarta-feira, dia 9, este florentino de gema, mas faialense de coração, completou 88 primaveras, visitadas por muitos outonos, e diz com graça que só foi registado um ano depois de ter nascido. E só não foi mais tarde, porque o tio José como fez carta de chamada à mãe de José Lisandro – a família podia ter ido parar à América, mas o chefe de família assim não entendeu – foi no Registo Civil, por causa de fazer os papéis para embarcar, que se percebeu que o bebé Raimundo ainda não havia sido registado.

Por estar no Faial, a viver e a conviver com a malta do Clube Naval da Horta, na festa que foi a Entrega de Prémios do XII Encontro Internacional de Vela Ligeira, cantaram-lhe os parabéns, desejando muitos mais verões.

E porque não pode haver aniversário sem prendas, o menino Lisandro foi obsequiado com um estojo em vidro, com uma baleia no interior. Mas nota-se que o aniversariante está habituado a estes mimos – e aprecia! – pois quando perfez 8 décadas ao serviço da vida, houve um grande jantar festivo no CNH, altura em que recebeu um estojo com ferramentas pequenas em osso de baleia, que muito apreciou. E os olhos do velho lobo do mar brilham com estas memórias e manifestações de carinho e de amizade por parte de uma gente que tem como sua.

Mas José Lisandro não se esquece de quem gosta, e na casa que o acolhe sempre de braços abertos – o Clube Naval da Horta – esta sexta-feira, dia 11, vai brindar os amigos com um petisco divinal, para o qual o Gabinete de Imprensa também já foi convidado. A coisa promete a avaliar pelos comentários e a garantia de que o petisco veio de longe propositadamente para a festa!

Um lobo do mar

É no mar que este velho lobo se sente bem. Por isso, a vida foi passada por aqui e por ali, tendo como companhia os amigos, as baleias, os passageiros e as namoradas, em terra.

Começou a arriar baleia aos 13 anos, atrás do tio, António Raimundo, que era mestre de lancha.

Com 15/16 anos arriava nos botes. Aos 17 tirou a Carta de Trancador, na Capitania de Santa Cruz das Flores, ilha onde começou a arrear. No ano de 1930 foi como trancador para a Terceira, regressando posteriormente a casa. Há meio século veio para o Faial arriar como trancador. O José Rufino, que era das Angústias mas mudou-se para a freguesia do Salão por lá ter casado, era oficial de baleia, tendo sido “o melhor oficial” que José Lisandro teve, por ser “muito calmo e discreto”. Após um ano no Faial, para onde veio contratado pelo Manuel da Rosa, do “Costa & Martins”, regressa à sua ilha. Foi o feito alcançado no anterior à vinda para o Faial, em que apanhou 28 baleias, que esteve na origem deste contrato, ao abrigo do qual recebia 3 soldadas no fim da época e tinha casa para morar.

Tudo somado, perfaz 30 anos como trancador nas Flores, Faial e Terceira. Não admira, pois, que diga de forma muito natural que a sua vida foi o mar. Só assim se explica que, já depois de a faina ter acabado, continuasse a vivê-la intensamente e quando estava deitado na cama e ouvia uma bomba, dava um salto, pensando que o passado se fizera presente.

Mas o Faial, por onde andou embarcado em navios de passageiros, como o “Carvalho Araújo” – pois era preciso ganhar a vida “no que calhava” e o mar afigurava-se como um chamamento – sempre teve outro encanto para este florentino, ou não fosse a terra onde há 56 anos deu o sim a Regina Ávila Pereira Xavier, moradora para os lados da Feteira. Deste amor nasceram dois rebentos, um rapaz e uma rapariga, mas quis o destino que ele partisse aos 23 anos, fruto de uma doença súbita. A filha não encara o mar com a coragem do pai.

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“Sempre que José Lisandro gosta de alguém, diz que é um porcaria”

O gosto pelo mar

As regatas de Botes Baleeiros que animam o programa do Festival Náutico do CNH, são encontros sagrados para José Lisandro, que por isso não falta a uma. A grande amizade que nutre por José Decq Mota fica bem patente na forma como se tratam. José Lisandro não esconde o quanto gosta do Faial, onde se sente muito bem; do Clube Naval da Horta, onde entra como se fosse em sua casa e se sente à vontade; da Semana do Mar, festa que aprecia muito; e desta gente, que vê como uma grande família, que o acolhe e escuta.

Ícone dos marítimos

Convidado a dizer umas palavras sobre este grande amigo, José Decq Mota sorri e atira: “Sempre que gosta de alguém, diz que é um porcaria”. As razões para cá estar e gostar disto, já foram apresentadas.

“Desde que os Botes Baleeiros têm uma Comissão do Património Baleeiro, que José Lisandro vem à Semana do Mar, sendo uma figura que “ajuda e desestabiliza. É uma espécie de ícone dos marítimos e das profissões variadas que exercia na caça à baleia. Tem 88 anos e toda a gente sempre o respeitou e continua a respeitar. É gratificante receber alguém como o meu Amigo José Lisandro, o último trancador da baleia nos Açores, ainda vivo”.

José Lisandro é um contador nato de histórias e testemunha de um passado ainda quente, que nos identifica e distingue.

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