Volta aos Açores Contra as Dependências

João Silva: “Dedico inteiramente aos meus pais a concretização deste Projecto”

No rescaldo do Projecto, João Silva organiza ideias e o material recolhido, garantindo que vai haver novidades

Quatro meses depois de o “Twisted” se ter feito ao largo com o seu mestre, João Silva, na “Volta aos Açores Contra as Dependências”, o sentimento é de “missão cumprida”. O objectivo era falar abertamente da experiência vivida (adicção de álcool), alertar para comportamentos de risco e incentivar à prática de estilos de vida saudáveis através da Vela, dando conselhos sempre que solicitados.

Agora, é tempo de varar o companheiro de muitas travessias, de rever o material recolhido e de reflectir sobre o passo seguinte, sim, porque o Projecto não vai parar por aqui.

Na entrevista agora concedida ao Gabinete de Imprensa do Clube Naval da Horta (CNH), este faialense, amante do mar e da Vela, Sócio e Colaborador do CNH, adicto em recuperação, relata-nos os vários capítulos desta história com final feliz.

volta aos acores dependencias 14 2018

“Em Santa Maria tive a oportunidade de ir ao Liceu”

“Acharam imensa piada ao facto de eu fazer isto num veleiro”

- Gabinete de Imprensa do CNH: A “Volta aos Açores Contra as Dependências” prolongou-se um pouco mais do que o ‘timing’ inicialmente previsto.

- João Silva: Sim. O meu ‘timing’ inicial era de Junho a Agosto, mas acabei a 30 de Setembro. O falecimento do meu pai em Julho, fez com que eu tenha parado durante quase um mês. No entanto, o programa foi todo cumprido. Foram 9 ilhas em 4 meses, de Junho a Setembro.

O facto de, no início da viagem já não ser tempo escolar, fez com que a inter-acção com as escolas não tenha sido a maior, mas já em Santa Maria tive oportunidade de ir ao Liceu, e em São Miguel fui ao Clube Naval de Rabo de Peixe. O ‘feedback’ foi bom em ambos os lados.

Na escola de Vila do Porto (Santa Maria) os jovens estavam super-interessados. Acharam imensa piada ao facto de eu fazer isto num veleiro e fizeram-me várias perguntas sobre como era andar num veleiro.

Em Rabo de Peixe também foi bastante interessante. Estiveram lá várias pessoas ligadas ao combate às dependências que gostaram de ouvir este testemunho na primeira pessoa. E posso adiantar que já surgiram alguns convites para ir fazer palestras.

- Gabinete de Imprensa do CNH: Então, foi um sucesso?

- João Silva: O Projecto foi mais do que um sucesso para mim. Nunca pensei que tivesse a visibilidade que teve. O Projecto nas redes sociais – ‘Facebook’ e ‘YouTub’ – registou milhares de visualizações.

Dos quatro cantos do mundo recebi ‘feedback’ de pessoas que acompanhavam a minha viagem. Já sabia que as redes sciais eram globais e permitiam chegar longe, mas nunca pensei atingir esta dimensão, pois uma coisa é pensar e outra é receber mensagens do Hawai, do Brasil, de portugueses no estrangeiro, luso-descendentes e mesmo estrangeiros. Houve muitos portugueses e luso-descendentes que acompanharam de perto o Projecto.

“O meu testemunho foi um acto de cidadania”

volta aos acores dependencias 13 2018

“Dos quatro cantos do mundo recebi ‘feedback’ de pessoas que acompanhavam a minha viagem”

- Gabinete de Imprensa do CNH: O que diziam?

- João Silva: Apoiavam muito esta iniciativa e admiravam a minha coragem de falar sobre esta problemática, se bem que eu disse sempre que isto para mim não era propriamente um acto de coragem mas de cidadania, e nesse aspecto o Projecto foi um sucesso.

- Gabinete de Imprensa do CNH: Nos Açores o impacto também foi bom?

- João Silva: A adesão surpreendeu-me bastante pela positiva! Houve uma grande abertura e divulgação por parte dos Órgãos de Comunicação Social (OCS) das diversas ilhas. As pessoas foram impecáveis em todas elas. Todas as ilhas tiveram aspectos diferentes e marcantes.

No Corvo foi bom, mas foi a ilha onde estive menos tempo, porque na altura estava a começar a entrar uma frente e como o porto está em obras, era difícil deixar lá o barco e aquele canal entre as Flores e o Corvo é um bocado mais agreste. Daí ter sido mais rápido, mas constituiu uma experiência boa.

Nas Flores foi fenomenal! Tive a sorte de já apanhar bom tempo lá e de andar pela ilha. Eu já tinha a certeza de que os Açores eram lindos, pois no trabalho tive a sorte de ter percorrido o Arquipélago várias vezes, mas agora tenho ainda mais a certeza de que vivemos num paraíso. Mais do que isso: sei que tenho de fazer tudo de novo, porque deixei muita coisa por ver. Deixei muitas baías que gostava de passar lá 2 ou 3 dias e também gostava de dar a volta à ilha. Não pude fazer isso no decorrer deste Projecto, porque também tinha os meus compromissos profissionais e os prazos eram apertados. Por isso, quando voltar a esses lugares será numa vertente de lazer para explorar melhor, porque todas as nossas ilhas têm excelentes condições para a náutica de recreio. Aliás, outro aspecto de que me apercebi foi de que todas as ilhas estão e vão estando bem apetrechadas para a náutica de recreio. Este conjunto representa um potencial enorme para o turismo.

Quando me encontrava noutras ilhas, encontrava sempre barcos que tinham estado na Marina da Horta. Isso demonstra que, cada vez mais, não somos só um porto de escala mas, também, um destino turístico. É muito importante salientar esse aspecto.

“Senti muito o apoio das pessoas”

- Gabinete de Imprensa do CNH: Esta viagem permitiu fazer novos amigos...

- João Silva: Fiquei com novos amigos e reencontrei amigos que tenho nas ilhas e isso foi o mais importante, porque alguns já não via há anos. Uma coisa que me tocou bastante foi que nalgumas ilhas as pessoas reconheciam o “Twisted” e a mim também.

Era um bocado estranho para mim passar na rua e dizerem-me: “Viu-o na televisão, acompanho o seu Projecto”. Senti muito o apoio das pessoas.

volta aos acores dependencias 11 2018

“Eu reconheço o senhor! Este é o barco que anda a favor da independência”

- Gabinete de Imprensa do CNH: Houve algum momento engraçado?

- João Silva: Em termos cómicos, tenho um episódio passado na Calheta de São Jorge. Quando cheguei, um senhor aproximou-se, começou a olhar para o barco e cumprimentei-o, ao que ele me disse: “Eu reconheço o senhor! Este é o barco que anda a favor da independência”. E eu lá expliquei que este barco não era pela independência mas que andava a percorrer as ilhas contra as dependências e ele depois lá se lembrou. Sem dúvida que foi o momento mais engrçado que eu tive na viagem.

Outro momento engraçado, com algum sentimento, foi, em certas ilhas, adictos em recuperação me terem vindo ver e termos comunicado através das redes sociais. Foi importante ter esse intercâmbio.

Já na ilha de São Miguel houve uma certa abordagem de vários adictos em recuperação. A troca de experiências e a partilha é muito importante para os adictos em recuperação se manterem neste caminho.

“O Projecto demonstrou que esta é uma luta difícil mas não impossível”

volta aos acores dependencias 9 2018

“Já surgiram alguns convites para ir fazer palestras” 

- Gabinete de Imprensa do CNH: Achas que podes ser visto como um exemplo para outros com problemas de dependências?

- João Silva: Eu sou um caso em recuperação. Todos sabem que é possível. Nós revemo-nos uns nos outros. Esta é uma doença que se trata dia-a-dia. Por hoje estamos em recuperação mas não sabemos o dia de amanhã.

Quando este dia acabar, passámos mais uma página e continuamos a luta. Para mim, foi muito importante darmos a mão uns aos outros para nos aguentarmos sempre em recuperação. Esse era um dos objectivos deste Projecto: demonstrar que isto é uma luta difícil mas não impossível. Não está perdida, muito pelo contrário! É possível vencê-la, continuar em tratamento e ter uma vida perfeitamente normal. E isso foi conseguido.

Fui abordado por algumas pessoas que tinham familiares com comportamentos de risco e que me pediam alguns conselhos e isso também foi importante. Quer dizer que eu cheguei a essas pessoas e que o testemunho da minha experiência pode dar algum contributo para que outros não contraiam esta doença.

- Gabinete de Imprensa do CNH: O que se segue? O Projecto vai ter continuidade, certo?

- João Silva: Tenho outras ideias, que ainda não estão completamente delineadas. Haverá uma continuidade desta minha luta contra as adicções e de querer partilhar a minha experiência de maneira a que consiga salvar outros e ajudar quem possa estar a tentar sair.

“Gostava de trabalhar com as camadas mais jovens”

- Gabinete de Imprensa do CNH: O que gostavas de fazer, concretamente?

- João Silva: Um dos projectos que eu gostava e que vou avançar, é trabalhar com as camadas mais jovens. Não sei se passará por uma Escola de Vela ou por um Campo de Férias de Vela. Agora, é tempo de varar o “Twisted”, de fazer várias manutenções necessárias, amadurecer ideias e logo se vê.

volta aos acores dependencias 20 2018

O “Twisted” será um grande protagonista no documentário sobre a viagem

- Gabinete de Imprensa do CNH: O que pretendes fazer com o material recolhido?

- João Silva: Tenho muitas horas de vídeo e um diário de bordo. Nestas primeiras semanas vou deixar “tudo no forno”. Certamente que vai surgir alguma ideia e que passará por fazer um documentário sobre esta viagem pelas 9 ilhas.

“Sem o apoio dos Patrocinadores não teria conseguido realizar este Projecto”

- Gabinete de Imprensa do CNH: Os Patrocinadores foram decisivos neste Projecto...

- João Silva: Sem dúvida! Acho que vou fazer uma sessão pública de encerramento deste Projecto. O ‘feedeback’ que tenho dos Patrocinadores e Apioantes é de que foi conseguido o objectivo traçado. Houve vários que apoiaram sem saber bem onde é que se estavam a meter, mas depois perceberam que foi uma aposta ganha.

Todos ajudaram de uma maneira imprescindível! Sem esse apoio não teria conseguido realizar este Projecto.

Claro que também houve um grande esforço meu, mas não era por aí, porque era uma missão a que eu me tinha proposto. E por isso havia que ultrapassar as dificuldades para concretizar este Projecto.

“O meu pai era um apoiante fervoroso deste Projecto”

- Gabinete de Imprensa do CNH: Mas sem o apoio da Família também não teria sido possível.

- João Silva: O apoio da Família foi decisivo. Sem esse apoio teria sido impossível! O meu pai era uma pessoa que eu admirava muito e ainda hoje admiro. Ele deitou-me a mão numa altura muito dificil.

Quando comprei o barco, ficou reticente sem saber se eu estava a dar um passo maior do que a perna, mas depois viu que o barco era uma grande ajuda para a minha recuperação e era um apoiante fervoroso deste Projecto. Dizia-me que um dos seus objectivos era não partir antes de ver este Projecto acabar. Infelizmente a doença foi mais rápida. Eu ainda tentei fazer um ‘forcing’ com uma saída às Flores ali à última da hora, mas algo me chamou já fora dos Vulcão dos Capelinhos e voltei para trás. Abortei essa viagem e ele acabou por falecer dias depois. São estes infortúnios da vida que temos de saber ultrapassar e este Projecto também tinha um bocado esse objectivo: mostrar às pessas que a vida não é um mar de rosas e que por vezes acontecem coisas de que não estamos à espera e para quem estiver com comportamentos de risco, são estas coisas que normalmente arrastam para uma adicção. Por isso, há que saber lidar com estas dificuldades e ultrapassá-las.

Isto para mim foi um choque e um contratempo, mas, por outro lado, também me deu uma força muito grande para acabar, porque sabia que ele me apoiava muito. Dedico inteiramente ao meu pai e à minha mãe todo este Projecto. Ela ficou extremamente contente e seja lá onde estiver o meu pai, deve estar a ver tudo isto e espero que se sinta orgulhoso por saber que o Projecto chegou ao fim com sucesso.

volta aos acores dependencias 1 2018

“A minha mãe ficou extremamente contente por eu ter concluído o Projecto”

“Tenho uma relação muito forte com o “Twisted”

- Gabinete de Imprensa do CNH: O que é que tu sentes?

- João Silva: Tenho um sentimento de dever de comprido e uma relação muito forte com o “Twisted”. Foram muitas horas um com o outro, em que vivemos momentos muito difíceis e outros de grande alegria, de grande contemplação da natureza e tenho a certeza de que tenho ali um barco robusto e capaz de aguentar bastante mar.

Isto não pode ficar por aqui e certamente haverá outros projectos em que eu e o “Twisted” estaremos envolvidos.

- Gabinete de Imprensa do CNH: Não havia momentos mortos?

- João Silva: Tinha de fazer a navegação, a comida, tinha de filmar, portanto estava sempre muito ocupado e quando não estava ocupado aproveitava para descansar, para ler, relaxar e entrar em modo de contemplação. No mar há poucos momentos mortos, a verdade é essa. Há sempre qualquer coisa para fazer.

volta aos acores dependencias 2 2018

“Certamente haverá outros projectos em que eu e o “Twisted” estaremos envolvidos”

“Este Projecto deu-me muita força para continuar em recuperação”

- Gabinete de Imprensa do CNH: Sentes que, com este Projecto, mudou alguma coisa na tua vida?

- João Silva: Este Projecto deu-me muita força para continuar em recuperação. Ajudou-me, cada vez mais, a manter-me em recuperação e sinto essa energia de volta.

Uma coisa que mudou foi principalmente a visão que eu tinha do Arquipélago. Eu já sabia, mas agora tenho a certeza: somos uns sortudos por termos nascido nos Açores. Não precisamos de ir para muito longe para vermos grandes belezas e vida selvagem como aqui.

- Gabinete de Imprensa do CNH: E o isolamento?

- João Silva: Acho que isso já não acontece com o mundo global de hoje em dia. Deve haver muita gente no centro de Lisboa que se sente bem mais isolada do que a gente aqui no centro do Atlântico.

- Gabinete de Imprensa do CNH: Queres aproveitar este momento para agradecer aos teus Patrocinadores e Apoiantes?

- João Silva: Claro que sim! Agradeço reconhecidamente ao Governo Regional dos Açores através da Direcção Regional da Juventude; Clínica de Recuperação de Alcoólicos Narcóticos (RAN), em Vila Real, no Continente português, que me apoiou muito; empresas “BricoVelas”; “Naturalist”; “Connect Designs”; “Portos dos Açores, S.A.”; “Central Sub”; “Dive Azores”; “Surfmilfontes”; “N.O.Frayão”; “Azul Pastel” e vários anónimos. Houve muita gente que me apoiou no anonimato e todas essas pessoas contribuiram para que isto fosse possível.

- Gabinete de Imprensa do CNH: Achas que o facto de trabalhares na Televisão contribuiu, de alguma forma, para o conhecimento do Projecto?

- João Silva: O Projecto e o tema em si é que despertou uma grande curiosidade, porque normalmente as pessoas retraem-se a falar sobre estes assuntos e eu assumi-o publicamente e com bastante frontalidade. Acho que foi isso que despertou o interesse das pessoas.

- Gabinete de Imprensa do CNH: Os tabus já começam a desaparecer?

- João Silva: Percebo que quem está de fora, já começa a ter outra abertura para falar do assunto e para reconhecer sinais de perigo e comportamentos de risco noutras pessoas, querendo ajudar e falar no assunto. Essa é que a parte mais importante. Penso que as pessoas já não se escondem com medo de alguma reacção, começando a tratar este assunto com maior frontalidade e honestidade.

- Gabinete de Imprensa do CNH: Tu continuas em contacto com outras pessoas em recuperação?

- João Silva: Tenho sempre contacto com conselheiros e outros adictos em recuperação. Apoiamo-nos mutuamente. Esta é uma doença em que o apoio e a partilha com pessoas que têm o mesmo problema, é muito importante. Mas faço isto por iniciativa própria.

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“Eu acho que quem está de fora, já começa a ter outra abertura para falar do assunto”

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