25 Anos da APADIF - Centro de Dia da Conceição: “Os idosos não têm idade, têm vida”

Cláudia Abreu, Directora Técnica do Centro de Dia da Conceição da APADIF: “Os contactos são muito importantes na medida em que funcionam como educação”

Uma referência no atendimento a idosos. Esta é a forma como o Centro de Dia da Conceição – uma das cinco valências das Associação de Pais e Amigos dos Deficientes da Ilha do Faial - APADIF – é conhecido. Porquê? Pelas actividades desenvolvidas, pelo atendimento que presta e pela dinâmica gerada neste espaço, onde também funciona o Centro de Convívio duas vezes por semana.

Depois do que foi dito em jeito de apresentação e antes da visita a esta valência, facilmente se percebe o porquê de existir uma extensa lista de espera e de ser imperativo aumentar este espaço, uma certeza já garantida pelo Governo Regional e que vai permitir aumentar a capacidade do Centro de Dia da Conceição. Estas são boas notícias para quem está desesperado na solidão ou na doença e ansioso por fazer parte desta “família”.

Logo à entrada deparamo-nos com umas frases/pensamentos que nos disseram irem mudando com frequência. As que encontrámos são alusivas à quadra que vivemos.

apadif 3 frases

A sala estava repleta de utentes que simpaticamente nos deram os bons dias num ambiente tranquilo.

Cláudia Abreu, Directora Técnica do Centro de Dia da Conceição da APADIF cumprimenta-nos e deixa-nos à vontade para conversarmos com quem quisermos. A vontade imediata é falar com todos mas percebemos que não vai ser possível. Por isso, recebemos algumas indicações.

apadif 4 maria isabel 2018

Foi graças ao apoio dos técnicos do Centro de Dia da Conceição que Maria Isabel recuperou a visão

João Duarte, Vice-Presidente da APADIF, e que nos acompanha nesta visita, sem pressões e com total liberdade para trabalhar, aborda Maria Isabel explicando: “Esta senhora ficou sem ver nada durante 4 anos. Por essa razão, quando começou a frequentar o Centro de Dia da Conceição era invisual. Depois, mediante o trabalho de acompanhamento dos técnicos desta valência da APADIF e do Serviço Social, tentou-se perceber qual seria o problema. Contactado o Hospital e o Centro de Saúde da Horta a fim de sabermos o percurso médico feito por esta senhora, concluiu-se que estávamos perante um caso de cataratas. Ultrapassada essa questão de não acompanhamento médico e percebendo-se que era possível a senhora Maria Isabel recuperar a visão através de uma cirurgia, avançou-se para essa solução este ano e hoje ela já vê perfeitamente, faz a sua vida, voltou a ser autónoma, passeia na rua e tudo regressou à normalidade.

Naturalmente que “foi muito bom”, refere Maria Isabel, que reside com um filho no Bairro da Boavista, na Horta. “Foi um apoio muito bom! Gosto de vir para o Centro de Dia da Conceição, pois fazemos ginástica, trabalhos, convivemos e damos passeios, além de ter feito novas amizades. Se não estivesse aqui, encontrava-me sozinha em casa”.

Sentada ao lado de Maria Isabel está Maria Alice, que nos diz gostar deste local, onde se encontra há pouco mais de um mês. “Sou dos Flamengos mas casei na Feteira. Aqui, as pessoas são bem educadas e convivemos. Somos todos amigos e por natureza sou uma pessoa calada que evito mexericos”.

apadif 5 maria alice 2018

No Centro de Dia da Conceição, Maria Alice encontra a companhia que lhe falta em casa durante o dia 

Fátima Quaresma: “Dá-nos prazer ter uma chefe com a categoria da Cláudia”

Conhecendo como ninguém a personalidade de cada um, Cláudia sugere que escutemos a história de Fátima Quaresma, uma guerreira que, graças à grande vontade de viver, superou uma enorme batalha, dando sinais de querer continuar assim.

“Estou neste Centro vai fazer 2 anos em Maio. O ambiente aqui é uma maravilha! Temos uma chefe de grande valor: nunca se zanga com ninguém nem levanta a voz. Dá-nos prazer ter uma chefe com a categoria que ela tem.

Se eu não tivesse vindo para aqui não sei se ainda existia.

Trabalhei no Hospital da Horta mais de 30 anos e a uma certa altura sentia-me muito tonta, o que me provocava uma grande aflição. Começou a preocupar-me a falta de equilíbrio, que ainda hoje tenho. Na sequência desses sintomas, fui quatro vezes a São Miguel mandada aqui da Horta e o médico que lá estava dizia sempre que eu não me deixasse operar, porque tinha um tumor muito grande na cabeça, o que seria um perigo para a minha vida e para a minha saúde. Mas eu tenho um filho no Porto, que é engenheiro agrónomo, que me dizia: “A mãe aí na Horta não está a fazer nada. Eu vou arranjar um médico para a mãe vir aqui”. Fui para Lisboa e quando o médico viu os meus exames, deu um soco em cima da secretária de trabalho e disse: “Se não tivesse vindo a esta consulta, teria mais 2 meses de vida!”

Eu estava acompanhada pelo meu marido, o meu filho e a minha filha e ele disse-me: “A senhora vai ser operada pelo Dr. Mário Resendes mas tem de ser em Gaia, no Hospital Santos Silva, que é onde ele trabalha”. Foi tudo resolvido entre eles, que são grandes amigos.

apadif 6 2018

“A Dra. Cláudia é um miminho, uma pessoa tão boa!”

“Ó senhora Fátima, tu és uma grande mulher!”

Ele disse-me que o meu tumor era benigno mas eu enervei-me muito.

Fui operada durante 7 horas e correu tudo bem. Foi muito tempo! Depois ele conversou muito comigo e com a minha família, explicando que o tumor era muito grande e tinha raízes muito fortes, com tendência a deslocar-se sempre para baixo. “Isso era a matança da senhora! Como é possível um médico cirurgião de Ponta Delgada ter aconselhado-a a tomar uma decisão que a levaria à morte!?”

Estive internada vários dias no Hospital e depois a recuperação foi feita no Continente, em casa do meu filho Celso, ao longo de 4 meses.

O médico fez todo este trabalho em colaboração com a sua equipa e acompanhou-me sempre, dizendo-me: “Ó senhora Fátima, tu és uma grande mulher!” E a seguir acrescentou: “A senhora não faz ideia do buraco que tem na cabeça!”

Eu tentei fazer tudo o que ele mandava: não queria que eu mexesse os pés e eu não mexia. A minha cabeça parecia chumbo. Se eu estivesse deitada e quisesse virar a cabeça, alguém tinha de me fazer isso, porque sozinha não conseguia.

Levei muita anestesia e fiquei meio atordoada da cabeça. Não conhecia bem as pessoas nem comia com a minha mão. Fiquei com muitas sequelas – não vejo de uma vista nem ouço de um ouvido além de ter perdido o olfacto – mas estou muito melhor! Tenho consciência de que por vezes esqueço e baralho algumas coisas.

Nos exames posteriores que tenho vindo a fazer, o sr. Dr. disse-me que o outro tumor mais pequeno, que tenho também na cabeça, não se movimentou. E pediu-me que se houvesse alguma alteração, eu o contactasse de imediato, pois como meu médico é que sabe o que aqui está feito.

Actualmente moro na Ribeirinha mas antes do sismo de 1998 residia nos Espalhafatos. De semana o meu marido vem pôr-me e buscar aqui ao Centro de Dia da Conceição e ao fim-de-semana estou em casa. Tenho uma pequena que cozinha e limpa a casa uns dias por semana. Por vezes chego a casa e ela diz-me: “Ó senhora Fátima, esta comida hoje está a cheirar tão bem! Mas infelizmente já não consigo cheirar nada.

Este Centro de Dia é uma mais-valia para mim

Tenho sempre tonturas e dores de cabeça, situação que é controlada pela medicação. Este Centro de Dia é uma mais-valia para mim, pois não posso estar sozinha e também não tenho recursos para poder ter alguém a tomar conta de mim em casa de forma permanente. A pessoa que vai lá a casa é excelente! Faz a comida e a limpeza e a gente dá-lhe sempre uma coisinha a mais. Agora pelo Natal quero comprar-lhe uma prendinha em recompensa por aquilo que ela faz.

Gosto de estar aqui. A Dra. Cláudia é um miminho, uma pessoa tão boa!

Sei o que é chefias, pois estive no Hospital da Horta mais de 30 anos – trabalhei na Medicina, Cirurgia e Maternidade – tive várias chefes e para suportarmos algumas era preciso sermos muito bons e ter muita força!

Sinto-me bem neste ambiente e sempre que posso colaboro nas actividades que são realizadas”. 

Teresa Almeida: “Gosto muito da minha chefe. É como uma mãe para mim!” 

Olhando para Teresa Almeida estaríamos longe de imaginar a vida de sofrimento que passou!

É com naturalidade que nos conta que há perto de 5 anos não vê nada. “Foi dos diabetes. O médico nunca me disse nada. Pus dois pingos eram 10 horas da noite e no outro dia de manhã acordei cega. Caí no chão e comecei a dizer: “Tou cega, tou cega!”

Sou viúva e morava com um filho que devido aos seus vícios não me fazia companhia alguma.

As senhoras da Assistência vieram falar com a minha chefe para ver se eu podia vir para este Centro, o que foi uma esmola para mim! Eu estava em casa da minha irmã Iracema, que não tinha condições para cuidar de mim. Quando estas senhoras apareceram fiquei toda contente!

apadif 7 2018

“Sou amiga de dizer as minhas piadas e de dar umas gaitadas! Já que Nosso Senhor me tirou a vista compensou-me com esta boa disposição”

É muito bom estar aqui onde sou bem tratada. É um sacrifício estar em casa ao sábado e ao domingo, pois estou sempre deitada e sozinha!

Gosto muito da minha chefe. É como uma mãe para mim!

Sou amiga de dizer as minhas piadas e de dar umas gaitadas! Já que Nosso Senhor me tirou a vista compensou-me com esta boa disposição. Sou uma pessoa divertida.

Eu é que ajudei a criar o Fernando Menezes

Dava dias em casa de pessoas da cidade como o Dr. José de Freitas; o Dr. Decq Mota; o Sr. Jaime Melo; a Maria do Chico Campos (que morava por cima da Pastelaria); em casa da Cristina da “Foto Jovial”; da “Papagaia” que fazia análises na Junta; da D. Alice Menezes; do Jorge Menezes. Eu é que ajudei a criar o Fernando Menezes. Eu fugia da escola para ir para casa da mãe dele.

E a propósito do Fernando Menezes, recordo-me que há algum tempo houve uma festa nos Flamengos e as pessoas aqui do Centro foram convidadas. Como não vejo, a empregada sentou-me numa mesa e eu lá fiquei. Logo a seguir ouço uma pessoa dizer: “Boa noite, senhora Teresa”. E eu respondi: “Boa noite, senhor”. E a pessoa insistiu: “A senhora não me tá conhecendo?” E eu: “Não, senhor”. E novamente: “Ó senhora, não me diga que não me tá conhecendo! Pois a senhora ajudou a criar-me e não me tá conhecendo?” E eu tive de dizer que não. Até que ele se identificou: “É o Fernando Menezes!” E eu: “Ó Fernando, desculpa-me que eu não tava a conhecer-te pela voz”.

E ele recordou que eu o tinha ajudado a criar e que já adulto me dava as chaves do seu gabinete para eu o ir limpar ao sábado.

Perante isto, a empregada disse: “Então vou tirar a Teresa desta mesa”. E ele não deixou, dizendo: “Não, ela tá sentada aí, aí fica. Tá sentada em frente a mim. Eu hoje é que vou tratar da Teresa que ela já tratou de mim”. E pôs-me a comida no prato. E a mulher – que é um pouco soberba, trabalhei em casa da mãe dela – dizia: “Cala-te home, tá quieto! Deixa esta mulher da mão”. Mas o Fernando ripostava: “Tu cala mas é a boca p’ra aí que eu é que vou tratar desta mulher”.

E disse-me: “Olha Teresa: tem carne, galinha, croquetes” e serviu-me daquilo que pedi. E quando me preparava para comer e beber o sumo, ele avisou: “Tu vais é beber vinho mais eu!”

E a mulher vai assim: “Ah home, tu tás doido? A dar vinho a esta mulher!?”

E o Fernando: “Tá calada! Não faz mal nenhum a esta mulher beber um copo de vinho”. Eu não bebi só um copinho, bebi mais do que um. E consolei-me!”

Toda a gente dizia que eu era muito limpa!

A minha vida foi muito difícil! Morava abaixo da Santa, onde hoje é a casa daquele estrangeiro. Casei sem amor, porque foi um casamento feito, que durou 46 anos!

Passei muita fome e levei muita porrada. Tratava do gado, sachava milho, batatas. Fazia tudo!

Penei muito com meu marido, por isso dizia sempre: “Este diabo nunca mais morre!” E ele garantia que antes de morrer me ia ver cega e assim aconteceu!

Ele pôs-me a trabalhar p’ra fora. Levanta-me de manhã cedo, fazia as minhas caminhas, tratava dos porcos, das galinhas, ia pôr os bezerros a mamar ns vacas, tirava o leite, ia pô-lo no posto e dizia às patroas: “Se eu chegar mais tarde, deixe estar que aquilo que estiver destinado para mim, vou fazer”. Parece que era Nosso Senhor que me ajudava, pois quando era duas e meia duas e um quarto eu tinha tudo pronto.

Toda a gente dizia que eu era muito limpa! Limpava aquelas janelas, passava um pano nas portas; se as paredes tinham caruncho passava um pano com lixívia crua e deixava estar ali um bocado e depois lavava e ficava tudo consolando a ver. Trabalhava muito! Tive quatro rapazes e duas raparigas. Tenho um filho em São Miguel que gosta muito de mim e um outro que morreu às lapas na Praia do Norte. Vou duas vezes por ano a São Miguel. Agora pelo Natal vou estar com ele”.

“Somos, como eles dizem, uma Família!”

apadif 8 claudia abreu 2018

“As nossas actividades têm todas como base o amor, o respeito, o carinho, a amizade. E para eles isso é muito importante”

Cláudia Abreu recorda que o Centro de Dia da Conceição foi inaugurado a 3 de Dezembro de 2011 mas só começou a funcionar em Abril de 2012.

Esta valência da Associação de Pais e Amigos dos Deficientes da Ilha do Faial tem capacidade para 30 utentes, apresentando lotação esgotada e uma lista de espera que ronda as 20 pessoas.

“Prestamos diversos serviços, desde as refeições (pequeno-almoço, lanche a meio da manhã, almoço, lanche a meio da tarde), tratamento da roupa, higiene da pessoa e  preparação da medicação para levar para casa. Há idosos que adquirem uma refeição para jantarem em casa.

Também acompanhamos os idosos às consultas, porque alguns não têm apoio familiar e outros até têm filhos e familiares que não lhes prestam este tipo de apoio. Somos, como eles dizem, uma Família!

Proporcionamos diversas actividades para além dos serviços prestados. Oferecemos um  plano recheado de iniciativas variadas desde hidroginástica, actividade física, actividade psicomotora, artes manuais. O nosso lema é: “Os idosos não têm idade, têm vida!”

Estas pessoas chegam a uma determinada altura da sua vida que merecem ser valorizadas. Por isso temos outro lema que é: “O amor gera o amor”.

As nossas actividades têm todas como base o amor, o respeito, o carinho, a amizade. E para eles isso é muito importante. Mais importante do que fazer um trabalho manual é estar com eles, ouvir as suas histórias, pois muitos sentem grande solidão e por isso têm muita necessidade de falar.

Estas pessoas são uns super-heróis

apadif 9 2018

“O amor gera o amor”

Portugal é um país em que se fala muito nas crianças e nas leis em relação às crianças, mas no que diz respeito aos idosos depois de se reformarem quase que desaparecem. É um país que não valoriza os idosos.

Estas pessoas são uns super-heróis, porque trabalharam e passaram dificuldades. Por isso, quando falamos em crise eles dizem: “Crise?! Não sabes o que é crise! Crise é aquilo que a gente passou: ir para a escola descalços e com fome”.

Um bom exemplo é a vida da senhora Teresa, que dava um livro, e está ali sempre bem disposta e a sorrir. Ela teve uma vida terrível! E agora não vê absolutamente nada.

Ela chegou aqui numa fase complicada. Além de não ver, também não percebia o que lhe estava a acontecer, pois tem um Quociente de Inteligência (QI) baixo, é analfabeta, mas é uma pessoa que consegue perceber tudo.

A senhora Vanda Ângelo ainda andou com ela na tentativa de lhe explicar como é que as coisas funcionam quando uma pessoa é cega. Mas num caso como este, em que tudo sucedeu depois dos 60 anos, é complicado. É preciso perceber que a senhora Vanda é cega de nascença, estudou, aprendeu, é uma pessoa muito diferente. Por insistência dela, fomos ao Pico com a senhora Teresa a uma consulta particular para perceber se ainda poderia haver alguma solução. O que o médico disse foi que se ela conseguisse ver alguma luz, havia esperança, mas não é o caso. Ela teve uma vida tão ingrata e por ironia está a aproveitar mais desde que está cega.

Há histórias inacreditáveis aqui dentro, como é exemplo a da senhora Fátima, que podia ter morrido.

Tanta gente que tem vidas tão ingratas e chega a esta fase e a sociedade não dá qualquer valor. A realidade é esta: não há leis que protegam os idosos ao contrário do que acontece com as crianças.

Há pessoas que chegam aqui com sacos de medicação toda trocada! E então agora com os genéricos, houve quem tomava o mesmo medicamento três vezes por dia!

Sinto-me mais realizada a trabalhar com idosos do que com jovens

Sou Assistente Social e quando comecei a trabalhar na APADIF, em 2008, foi com jovens em risco, no âmbito do programa Estagiar L.  Depois, quando surgiu o Centro de Dia da Conceição, o senhor Fialho convidou-me dizendo que este era um bom desafio para mim.

Confesso que era um caminho às escuras, porque nunca tinha trabalhado com idosos mas a verdade é que sinto-me mais realizada a trabalhar com idosos do que com jovens. Porquê? Porque os idosos são muito gratos, valorizam muito aquilo que nós fazemos. Já para os jovens, num dia está tudo bem e no outro tudo mal. A adolescência/juventude é uma idade muito complicada.

No que diz respeito aos idosos, a maior dor de cabeça são as famílias, que complicam muito as coisas.

Funcionamos 365 dias por ano

Temos 6 idosos que estão entre o Centro de Dia da Conceição e o Centro de Noite nos Flamengos. Funcionamos 365 dias por ano, incluindo feriados e fins-de-semana, porque alguns idosos estão no Centro de Noite nos Flamengos e depois vêm para o Centro de Dia da Conceição. Esta é uma parceria que temos com os Flamengos enquanto o Centro de Dia deles não abrir.

Quando o Centro de Dia abrir lá em cima, eles ficam entre o Centro de Dia e o Centro de Noite, nos Flamengos.

A maior parte dos casos que temos aqui vêm encaminhados da Acção Social ou do Hospital.

Por vezes não há vagas na Santa Casa e põe-se a hipótese de haver no Centro de Noite. Quando o utente tem alguma autonomia, há alternativa entre Centro de Dia e Centro de Noite. Na realidade, a resposta entre Centro de Dia e Centro de Noite não é muito viável, porque a pessoa não pode ficar doente. É uma tristeza! Isto foi uma situação que se conseguiu criar aqui no Centro de Dia da Conceição mas não é o mais correcto e já dei a minha opinião sobre este assunto. A pessoa não pode ficar doente senão tem de vir para o Centro de Dia e depois tem de ir para o Centro de Noite e andar como a Sagrada Família, abaixo e acima.

Obras de ampliação do Centro de Dia

Inicialmente falou-se com o Governo Regional sobre a possibilidade de haver também aqui na Conceição Centro de Noite uma vez que o Centro de Noite dos Flamengos só tem capacidade para 8 pessoas – é muito pequeno – e a Santa Casa está sobrelotada.

Há muitas pessoas que vivem acamadas. Há familiares que chegam aqui mesmo desolados. Ser cuidador é muito complicado, sobretudo quando se trata de uma pessoa que está acamada. Quando a pessoa tem alguma autonomia tudo bem mas quem está acamado é muito complicado.

Quando o Centro de Dia da Conceição abriu demos uma resposta em termos de noite, porque temos dois quartos, cada um com duas camas. Estávamos a falar de alojamento temporário destinado àquelas famílias que se ausentavam ou queriam tirar um período de férias, o que só poderia ir até a um mês. Mas como tínhamos de pagar subsídio e turno, saía muito caro ao utente.

Conversámos com a Secretaria no sentido de abrir um Centro de Noite mas a resposta dada foi que o Centro de Noite era mais complicado em termos de custos e então o que a tutela decidiu fazer foi alargar a capacidade do Centro de Dia da Conceição, que vai passar de 30 para 50 idosos. Este projecto já foi viabilizado e as obras vão ser uma realidade.

Há muito drama e solidão no Faial

Quantidade não é qualidade! As pessoas têm de perceber que nós temos um determinado número de cadeirões e cada utente deve ter as suas condições para estar cá.

Ainda há dias veio aqui ao Centro de Dia da Conceição uma senhora dos Flamengos a chorar e a pedir uma vaga pelo amor de Deus, porque não podia estar sozinha. É claro que este tipo de situação me deixa um bocado frustrada, porque não há capacidade para mais e a senhora não tem qualquer tipo de apoio familiar.  

Acho que não há nada mais triste nesta vida do que chegar a uma idade em que se precisa e não se tem.

Eu também não pensava muito na velhice, a realidade é essa mas ao chegar ao Centro de Dia da Conceição já dou comigo a pensar: “Oh Senhor, como será a minha vida, será que vai haver alguém que me dê um copo de água? É dramático uma pessoa trabalhar e descontar uma vida inteira e chegar a esta idade com uma reforma mísera. A maior parte destas pessoas tem pouco mais de 200 euros e ainda ouço muita gente dizer: “Como é que há pessoas que vivem com o ordenado mínimo?” E agora pergunto eu: “Como é que há idosos que vivem com 200 e tal euros? Como é que conseguem comer e pagar os medicamentos?” Muitos comem sopas de leite ou de café à noite. Não há carne nem peixe. Comem aqui a sua refeição no Centro de Dia e à noite comem pão e queijo. Não há para mais!

Há muito drama e muitos idosos a passar dificuldades no Faial. A grande maioria chega a esta fase de vida sem um suporte ou um apoio...

Encontros Inter-Geracionais

apadif 10 2018

“Reparei que algumas crianças ao chegarem aqui ao Centro de Dia da Conceição tinham receio e vergonha de dar um beijinho a um velhinho”

Tentamos ao máximo fazer Encontos Inter-Geracionais e trabalhar principalmente com as turmas das escolas no sentido de os mais novos irem percebendo isto. Há pouco tempo realizámos aqui no Centro uma actividade desse género em que foram convidadas as turmas do Casa de Infância de Santo António – da 1ª até à 4ª classe – e depois em resposta a este intercâmbio os nossos utentes também foram lá fazer bolachas e outras actividades. E foi engraçada a convivência entre eles e as perguntas que as crianças colocavam, como por exemplo: “Como é que iam para o Continente? De barco? E quantas horas levavam? Dias?!?”

Acho que é nestas idades que conseguimos trabalhar e educar as crianças, porque são elas que vão tratar de nós amanhã. É fundamental haver esta aprendizagem, esta sensibilização no sentido de elas irem percebendo a importância destes gestos, pois os pais trabalham e a maior parte dos avós também e tem de haver alguém que lhes incuta estes valores. Sinto-me uma felizarda tendo em conta que fui criada pela minha avó mas hoje em dia a maior parte destes miúdos vai para os colégios ou para as amas.

Reparei que algumas crianças ao chegarem aqui ao Centro de Dia da Conceição tinham receio e vergonha de dar um beijinho a um velhinho. Os contactos são muito importantes na medida em que funcionam como educação. Mas na minha maneira de ver, esta educação só surte efeito nas crianças mais pequenas, porque se estivermos a falar de quem frequenta o 7º, 8º ou 9º anos, essa população já está moldada.

É tão importante para os mais pequenos darem a mão a um idoso, acompanhá-lo, ajudá-lo. Há dias uma mãe contou-me que a filha – que tinha estado aqui no Centro – ao chegar a casa lhe disse: “Mãe, eu hoje dei a mão a uma senhora, porque ela, coitadinha, precisava de ajuda. Ah! É tão triste chegar a velhinho!” A criança estava tão preocupada e é bom que nestas faixas etárias aprendam a respeitar e a ajudar os mais velhos.

Sempre que podemos, fazemos hidroginástica e actividades inter-geracionais neste ambiente com miúdos de outras escolas, como da Vista Alegre, em que juntamos crianças de 5 anos com os idosos e rematamos com um lanche em que todos convivem.

Aqui, no Centro de Dia  da Conceição da APADIF, os idosos têm tudo!

apadif 11 2018

“São os idosos que me fazem levantar todos os dias, porque eles são inacreditáveis!”

Sem dúvida que os trabalhos manuais são importantes mas há aspectos muito mais importantes, como as partilhas, as experiências uns com os outros, as conversas. É crucial os idosos se sentirem acompanhados, recebendo amor e carinho. Aqui, no Centro de Dia  da Conceição da APADIF, eles têm tudo! Saem daqui com a alma cheia. São os idosos que me fazem levantar todos os dias, porque eles são inacreditáveis! Fico emocionada com as histórias de vida deles. E muitas vezes vou para casa a pensar naqueles que não conseguimos ajudar. É frustrante não podermos atender a todos!

Aqui, a gente chora e ri com eles. Fazemos tudo com eles. Das 08h30 às 18h30.  Todos os dias.

De dia, o Centro conta com um maior número de idosos e aos fins-de-semana apenas ficam cá aqueles (6) que se encontram entre Centro de Dia e Centro de Noite.

Fazemos o bem sem olhar a quem

apadif 12 2018

Cláudia Abreu e a sua “fantástica” equipa!

Gostaria de aproveitar esta oortunidade para destacar que só conseguimos fazer um excelente trabalho graças a esta equipa fantástica de que fazem parte: Maria José Simões, Laura Oliveira, Isabel Mota, Paulina Geraldo, Maria da Luz, Lília Martins, Renata Ávila, Susana Pereira, Pedro Cipriano, Luís Pacheco e Roberto Faria. São eles que todos os dias fazem a diferença no quotidiano dos nossos idosos. Por vezes são pequenos gestos que valem muito. Fazemos o bem sem olhar a quem”.

Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.