25 Anos da APADIF - Centro de Desenvolvimento e Inclusão Juvenil ajuda os jovens a encontrarem rumo

Carla Mateus, Monitora; Glória Neves, Coordenadora; Lénia Mota e Nuno Carneiro, Monitores, compõem a equipa do CDIJ da APADIF, que brevemente contará, também, com uma Psicóloga 

Seguindo o roteiro pelas diversas valências da Associação de Pais e Amigos dos Deficientes da Ilha do Faial (APADIF), a viagem de hoje leva-nos a conhecer o trabalho desenvolvido pelo Centro de Desenvolvimento e Inclusão Juvenil (CDIJ), criado em 2006 e actualmente a funcionar nas Angústias (antigas instalações da Radiodifusão do Faial, propriedade da Paróquia).

Glória Neves, a Coordenadora do CDIJ, conta-nos como tudo começou e o percurso trilhado até hoje.

“Trabalhamos com jovens dos 13 aos 25 anos”

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O Centro de Desenvolvimento e Inclusão Juvenil (CDIJ) da APADIF é um farol na vida de muitos jovens do Faial

“Esta valência surgiu em 2006 no âmbito do “Programa Escolhas”, em que o projecto se chamava “Veredas”. O “Programa Escolhas” é um programa nacional de candidaturas, das quais o “Projecto Veredas” fez parte da 3ª geração, numa candidatura de 3 anos.

Desde 2009 que o Centro de Desenvolvimento e Inclusão Juvenil da APADIF passou a integrar a Rede Regional de Centros de Desenvolvimento e Inclusão Juvenil.

Esta valência da Associação de Pais e Amigos dos Deficientes da Iha do Faial trabalha com jovens dos 13 aos 25 anos, acompanhando-os em todo o seu quotidiano.

Até 2018, o acompanhamento dos jovens e do seu dia-a-dia era realizado em actividades extra-escolares (desporto, apoio escolar, expressão plástica, competências para a vida activa, etc) e no acompanhamento a algumas turmas em contexto escolar.

Neste ano lectivo de 2018/2019 tivemos uma alteração no nosso programa de trabalho, relacionada com a implementação de Cursos de Formação Vocacional.

Cursos de Formação Vocacional

O CDIJ tem uma parceria muito importante com a Escola Secundária Manuel de Arriaga (ESMA) da Horta, em que fazia o acompanhamento dos jovens, com a apresentação de temas, principalmente na área da Cidadania, a algumas turmas deste estabelecimento de ensino. Mas neste ano lectivo demos um salto grande, em parceria com a ESMA, tendo arrancado os Cursos de Formação Vocacional, com duas turmas: o Curso de Formação Vocacional A e o Curso de Formação Vocacional B.

O Curso de Formação Vocacional A é da área de Turismo e conta com 16 alunos. A componente pedagógica funciona na ESMA enquanto que a componente da área vocacional funciona aqui, no CDIJ.

Estes alunos têm três áreas vocacionais: Animação Turística (uma parceria com a UrbHorta); Turismo Ambiental e Cultural ( uma parceria com o Observatório do Mar dos Açores - OMA); e Turismo e Informação Turística (uma parceria com a Direcção Regional do Turismo).

Depois, temos o Curso de Formação Vocacional B, que é da área de Educação Ambiental. A componente pedagógica é feita no CDIJ pelos professores da ESMA, que se deslocam cá e dão as aulas no nosso espaço. A componente prática – área vocacional – também decorre na sede do CDIJ.

Estes alunos têm três áreas vocacionais: Ambiente e Protecção Civil (uma parceria com a Associação de Bombeiros Voluntários do Faial); Agricultura Biológica/Sustentável (uma parceria com a Secretaria Regional da Agricultura e Florestas); e Vigilantes da Natureza (uma parceria com a Direcção Regional do Ambiente).

O acompanhamento desta componente prática é realizado por Formadores das Instituições parceiras e pelos Monitores do CDIJ, que acompanham os alunos nas actividades.

Para além das áreas vocacionais, a componente pedagógica  é composta por disciplinas como: Português, Inglês, Matemática, Geografia, História, Físico-Química, Ciências Naturais, Orientação Escolar e Vocacional, Competências Pessoais e Sociais e Educação Física.

Estamos a falar de Cursos enquadrados pela Direcção Regional da Educação (DRE). Para tanto, foi feita uma candidatura em Julho deste ano fruto da parceria estabelecida entre a APADIF e a ESMA e conseguimos que os mesmos fossem aprovados, tendo as aulas arrancado no dia 14 de Setembro deste ano.

Combater o absentismo e o abandono escolar

O nosso ‘feedback’ é sempre positivo na medida em que estes jovens estavam na ESMA, apresentando no ano lectivo anterior uma elevada taxa de absentismo e abandono escolar.

Trata-se de jovens com características muito especiais, que não se enquadrando no ambiente físico escolar nem nos métodos escolares presentes, não se identificam com os mesmos.

Perante essa problemática, surgiu o desafio de tentarmos criar um Curso de Formação Vocacional fora da Escola, noutro ambiente, mas acompanhados pela nossa esquipa em colaboração com os professores da ESMA. Estes são sempre alunos da Escola Secundária Manuel de Arriaga tal como os outros que frequentam este estabelecimento de ensino. O que acontece é que têm aulas no nosso espaço.

Estamos muito satisfeitos, porque eles gostam de estar aqui, não se verificando abandono ou absentismo. É verdade que já nos deparámos com alguns comportamentos menos positivos mas nada que não estivéssemos a contar e que são próprios do percurso deste projecto. Neste primeiro período fazemos um balanço positivo.

Uma última oportunidade

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“Estes jovens são receptivos e gostam de nós. Vê-se isso pela maneira como nos tratam, com respeito” 

Estes Cursos têm a duração de 2 anos e dão equivalência ao 9º ano. Foram pensados para estes jovens com características especiais. Trata-se de uma população flutuante dos 15 aos 17 mas temos muitos no limiar dos 18 anos, ou seja, vão completar os 18 anos enquanto frequentam estes Cursos. O objectivo é evitar que abandonem a Escola, caso contrário ficam apenas com o 6º ano.

Eles sabem que esta é, por assim dizer, quase uma última oportunidade, pois no ensino regular jamais conseguiriam fazer o 9º ano em apenas 2 anos.

Tal como acontece com outros Cursos, nestes terão também o seu momento de Estágio, a partir de Março/Abril de 2019, com a particularidade de terem um acompanhamento mais personalizado da nossa parte.

No universo da ESMA, com mais de 900 alunos, é difícil para um professor que tem uma turma com 20 alunos, dar uma atenção especial a cada um. Nós, no CDIJ da APADIF, complementamos ou reforçamos o trabalho que é feito pelos professores da ESMA que nos acompanham neste projecto. Estes alunos, além do professor na sala de aula, têm, ainda, sempre um Monitor que ajuda e colabora em tudo o que seja preciso.

Se por qualquer razão, algum jovem se mostrar mais instável pode sempre contar com o apoio, compreensão, ajuda ou encaminhamento do CDIJ.  

Apoio a jovens em diversos contextos

Além do acompanhamento que fazemos a estas duas turmas dos Cursos de Formação Vocacional, também temos os nossos jovens que já acompanhávamos e que neste momento uns se encontram a estudar na ESMA, outros na Escola Básica Integrada António José de Ávila, da Horta e outros ainda na Escola Profissional da Horta. Damos apoio a cerca de 25 jovens. Eles estão na escola, têm o seu horário normal e depois das aulas vêm ter connosco ao CDIJ e participam nas nossas actividades extra: passeios, desporto, apoio escolar, dança, entre outras. Temos sempre uma actividade de dança com as nossas jovens, que todos os anos participam no aniversário da APADIF. 

Também ajudamos nos trabalhos de casa, a estudar e a prepararem-se para os testes. Por vezes fazemos, ainda, o acompanhamento a consultas e aqui temos uma relação próxima com a família, que nem sempre consegue dar o suporte que estes jovens precisam. Aí apoiamos, acompanhamos e encaminhamos em colaboração estreita com os serviços.

CDIJ: um porto de abrigo

Estou no Centro de Desenvolvimento e Inclusão Juvenil mesmo desde o início (2006). Trabalho com jovens desde 2006. Sou Técnica Superior de Educação Social e Formadora. Sou da Ilha do Pico e vim parar ao Faial há 12 anos. Gosto de trabalhar com jovens mas após tantos anos, confesso que começo a ficar um bocadinho cansada. Cada um tem as suas características específicas o que significa que precisam muito da nossa atenção e do nosso carinho, de um apoio mais individualizado. E muitas vezes temos de ser os educadores, a família, os psicólogos. Tudo!

Os jovens vêem este projecto como um “porto de abrigo”. Sempre que surge alguma contrariedade, procuram-nos. Representamos um bocadinho os modelos de que precisam. Eles sabem que estamos aqui para os ajudar e principalmente para encaminhar, porque o que falta a muitos destes jovens é quem os encaminhe. Eles são receptivos (uns mais do que outros) e gostam de nós. Vê-se isso pela maneira como nos tratam, com respeito. Porque também fazemos questão de os tratar com respeito.

Acabamos por fazer um bocadinho de tudo

A equipa do CDIJ do Faial é composta por quatro elementos: eu, que sou a Coordenadora; e três Monitores: Nuno Carneiro, Carla Mateus e Lénia Mota.

Recentemente fizemos uma candidatura para uma Psicóloga/o e ficámos a saber, há uns dias, que foi aprovada.

Recorremos ao Governo Regional dos Açores, através da Secretaria Regional de Solidariedade Social – que é quem nos tutela – e pedimos apoio. É daí que vêm as nossas respostas em termos de pessoal. Perceberam que com estes novos Cursos, este ano ficámos com muitos mais jovens à nossa responsabilidade e é fundamental que tenhamos uma equipa capaz de dar resposta a estes jovens.

A parte da Psicologia era uma falha desde o início mas agora vai ser colmatada. Acabamos por fazer um bocadinho de tudo. Sou Coordenadora mas sempre que é preciso também faço transportes, actividades, etc, tal como os Monitores. Tenho dois Monitores com o 12º ano e uma que é da área de Psicologia e Fisioterapia mas não completou a formação.

É preciso ter o perfil certo para trabalhar no CDIJ

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“Não é fácil enfrentarmos certas situações no nosso dia-a-dia com estes miúdos” 

Encontrar pessoal que se enquadre nestas funções é mais difícil. Para trabalhar no CDIJ é preciso ter um perfil certo, pois lidamos com jovens que têm características muito especiais. Têm de ser pessoas com algum pulso, que saibam controlar as suas emoções, porque não é fácil enfrentarmos certas situações no nosso dia-a-dia com estes jovens. Temos que ser modelos de referência para eles, com o respeito que merecem, acreditando nos objectivos que construímos com eles.

Também é preciso ter disponibilidade e vontade de trabalhar aos fins-de-semana, feriados, etc. Foi precisamente isso que aconteceu este sábado, dia 16, em que recebemos um convite do Clube Automóvel do Faial (CAF) para os nossos jovens sentirem a experiência de andar num carro de rali, algo muito emocionante para eles.

A adesão ao “Futebol de Rua” é muito boa!

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Há 2 anos a Equipa do Projecto “Futebol de Rua”, do CDIJ do Faial, ganhou no Pico o prémio “Fairplay”, num jogo amigável

Temos ainda um projecto muito interessante que é o “Futebol de Rua”. Trata-se de uma iniciativa da Direcção Regional da Juventude, que tem como objectivo ocupar os jovens numa actividade saudável nos seus tempos livres.

Nesse âmbito, em 2017 participámos no Campeonato Regional de Futebol de Rua, que decorreu em São Miguel. Temos uma equipa de 10 jovens (rapazes) que este ano vai novamente participar neste evento. De salientar que o CDIJ do Faial tem um jovem que foi apurado para a Selecção Açores e, como tal, integrou a comitiva que participou no Campeonato Nacional.  

Gostaria de aproveitar esta oportunidade para agradecer à Direcção Regional da Juventude por este projecto e por nos dar a oportunidade de fazer a diferença na vida destes jovens, através do desporto.

Fazemos os nossos treinos duas vezes por semana e competimos a nível regional.

A adesão ao “Futebol de Rua” é muito boa! É através do desporto que muitas vezes conseguimos cativar estes jovens. De realçar que só faz parte deste projecto quem tiver boas notas e bom comportamento, o que funciona como uma motivação.

No “Futebol de Rua” existem, entre outros, o Prémio para o “Melhor Guarda-Redes” e o Prémio “Fairplay”. Este último é o ‘top’ deste projecto.

Há 2 anos ganhámos no Pico o prémio “Fairplay”, num jogo amigável. Tivemos bons resultados e esperamos que se mantenham este ano. O objectivo é jogar sem lutas sem brigas e com diversão, estando ocupados. Mas naturalmente que todos querem ganhar e ainda bem que assim é. Mas ganhar com respeito!

As pessoas ainda não sabem o que é o CDIJ

Após 12 anos de existência, sentimos a abertura da sociedade faialense ao trabalho do Centro de Desenvolvimento e Inclusão Juvenil da APADIF e alguma evolução no sentido de as pessoas aceitarem mais estes jovens noutros contextos, porque eles estavam um bocadinho cativos. Se não puxarmos por eles é difícil terem motivação para se integrarem na comunidade. Temos vindo sempre a realizar um trabalho de integração e inclusão.

Apesar de tudo, as pessoas ainda não sabem bem o que é esta valência. A ideia com que muitos ficam é de que, na APADIF, nós trabalhamos só com pessoas com deficiência. E na verdade o CDIJ tem jovens como todos os outros … jovens que merecem uma oportunidade como qualquer um.

Já tivemos casos de sucesso e digo com orgulho que uma das jovens que acompanhámos se encontra na universidade estando outros inseridos no mercado de trabalho. E sempre que nos vêem na na rua ou noutro local, cumprimentam-nos e visitam-nos sempre.

Precisávamos de um espaço maior

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As actividades cresceram e o espaço tornou-se pequeno

Quando entrei para a família da APADIF, pela mão do Sr. Fialho, era a segunda Coordenadora desta instituição. Ainda me lembro de só existir o ATL da Volta, dirigido pela Carla Matos. Depois é que foi criado o “Projecto Veredas”.

O CDIJ começou por funcionar na Bensaúde, em frente ao Clube Naval da Horta (CNH). Só em 2010 é que nos mudámos para este espaço – que era os estúdios da Radiodifusão do Faial – propriedade da paróquia das Angústias, estando alugado à APADIF. Com este projecto dos Cursos de Formação Vocacional e para a dimensão que já temos, precisávamos de mais espaço.

Temos muita autonomia em cada uma das valências

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“A APADIF chegou a um ponto que não pode parar; tem de evoluir. Se ficarmos por aqui, deixamos de acreditar”

Olhando para trás, digo que faria o mesmo percurso, porque consegui adquirir uma bagagem muito grande através dos projectos em que estive integrada, neste caso o “Programa Escolhas”. Era um programa nacional em que tínhamos acompanhamento.

Sentimos que em termos de formação ficamos um bocadinho fora daquilo que se passa a nível nacional. Muitas vezes somos nós próprios que procuramos formação e, como tal, questionamo-nos se estaremos a fazer bem, porque acabamos por ficar aqui um pouco sozinhos. Mas depois quando partilhamos ideias com outros colegas, afinal estamos a fazer as coisas bem.

Não há mais nenhum CDIJ no Faial e assim sendo vou procurando estar em contacto com os meus colegas de São Miguel e da Terceira – que é onde existem CDIJ a nível Açores – e que me vão ajudando sempre. Um obrigada a todos!

O bom da APADIF é acreditar sempre nos projectos, agarrando tudo o que é desafios novos. E nesta “casa” as pessoas trabalham. Chegam-se à frente e é isso que faz a diferença.

Acabamos por ter muita autonomia em cada uma das nossas valências o que é importante, porque dá azo a que construamos coisas e queiramos sempre fazer mais e melhor.

Trabalhamos sempre muito juntos entre todas as valências. Represento as coordenadoras na reunião de Direcção da APADIF, levando um bocadinho do nosso trabalho técnico e do nosso dia-a-dia para que a Direção possa ter conhecimento. Acabamos por ter uma grande ligação. Actualmente, a APADIF tem uma dimensão bastante grande.

Há dias disse ao Sr. Fialho que esta instituição chegou a um ponto que não pode parar; tem de evoluir, porque se parar, morre. Se ficarmos por aqui, deixamos de acreditar.

Os projectos estão sempre a suceder-se. Recordo-me que há 2 anos fizemos uma candidatura ao projecto “Bento de Góis”, em que realizámos uma viagem a Lisboa com jovens que nunca tinham saído do Faial nem andado de avião. Estamos a falar de um programa da Direcção Regional da Juventude que dava a possibilidade de conhecer Lisboa. Estes programas a que nos candidatamos vão dando asas aos nossos utentes”.

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