25 Anos da APADIF - Entrevista a José Fialho: “A minha maior recompensa é receber muitos abraços dos meus utentes”

Em 2020, o Presidente da APADIF completa 20 anos à frente dos destinos desta instituição

José Fialho foi sempre um homem de batalhas. A queda de cavalo que lhe aconteceu aos 5 anos de idade e o rumo que a sua vida tomou a partir daí, trouxeram ao de cima a vontade de trabalhar para minorar as diferenças dos portadores de deficiência na ilha do Faial. O seu dinamismo revelou-se em diferentes sectores, sendo bem demonstrativo de que querer é poder.

A sua maneira de ser calma e serena é a parte visível de uma pessoa teimosa e obstinada que sempre tem encontrado no diálogo o segredo para as negociações tidas como necessárias no âmbito dos projectos que tem vindo a abraçar enquanto Presidente da Associação de Pais e Amigos dos Deficientes da Ilha do Faial (APADIF), cargo que desempenha há 18 anos consecutivos.

É com a Entrevista a José Fialho, considerado como o homem “forte” desta Associação, que termina o conjunto de reportagens que têm vindo a ser publicadas de forma faseada, visando dar a conhecer o trabalho realizado pelas diversas valências desta “casa”.

Tal iniciativa surgiu no âmbito dos 25 Anos de existência desta instituição – ocorridos a 10 de Novembro último – e pelo facto de o Clube Naval da Horta (CNH) e a APADIF serem parceiros no Projecto “Vela Para Todos - Faial Sem Limites”, instituído protocolarmente a 29 de Dezembro de 2011, visando a inclusão de todos na prática da Vela.

“Os projectos que apresentamos são aceites e encarados de forma muito séria”

- Gabinete de Imprensa do CNH: Sente que as pessoas estão mais sensíveis à APADIF?

- José Fialho: Sinto que a sensibilidade para com a APADIF tem vindo a subir. E não tenho dúvidas de que o que tem contribuído para isso é andar no terreno, junto das pessoas, já que a maior parte das actividades é realizada na própria comunidade. Isso envolve as pessoas e ajuda a comprometê-las.

- Gabinete de Imprensa do CNH: Acha que a sua situação pessoal contribuiu para despertar em si a vontade de trabalhar em prol das pessoas com deficiência?

- José Fialho: O que me aconteceu contribuiu decisivamente para perceber as dificuldades e compreender que certas pessoas sentiram tantas ou mais dificuldades do que eu. Tudo isso fez com que eu canalizasse o meu conhecimento, a minha força de vontade e persistência no sentido de tentar ajudá-las.

A verdade é que desde muito cedo comecei a interessar-me pela colectividade. Isso aconteceu logo quando andava na Catequese, em que já fazia teatros com colegas e  crianças da própria Catequese. Isto com 7/8 anos. Depois foi com os jovens. Mais tarde fui autarca. Deu-me um certo prazer trabalhar como autarca, porque foi logo a seguir ao 25 de Abril e nessa altura havia muito dinheiro e perspectivas! Era mais fácil trabalhar nesse tempo do que agora. Isso foi bom e fez com que eu tivesse marcado presença na freguesia.

Posteriormente, comecei a andar muito na cidade e uma vez fui convidado para ir a uma reunião da APADIF. Nem sequer sabia qual era o tema da reunião e passados alguns minutos propuseram-me ser Presidente da Direcção. Hesitei um pouco, pois não sabia bem como funcionava. Tinha ouvido que havia uma Associação desta natureza mas sinceramente não conhecia os estatutos nem as pessoas que lá estavam. Caí ali um bocadinho de pára-quedas mas aceitei de bom grado, porque percebi que ia ter a oportunidade de poder contribuir com alguma coisa para ajudar as pessoas que estavam na minha situação. E quando surgiu esta oportunidade, pensei: “Bem, é agora!”

jose fialho 2 2018

Excerto da Revista “Vozes”, da APADIF, do mês de Novembro de 2018

- Gabinete de Imprensa do CNH: Há 18 anos já era visionário?

- José Fialho: Outro dia estava a fazer o Orçamento para este novo ano e a pequena que está mais responsável pela área financeira ao ver várias intervenções minhas e documentos antigos feitos por mim, disse uma coisa engraçada: “Sabes, estive a olhar para isto tudo e os primeiros documentos não fogem muito ao que está traçado para agora”. “Pois – disse eu – o meu objectivo foi sempre esse”.

Quando tomei posse foi sempre com o objectivo de tentar arranjar algo que viesse beneficiar as pessoas. Na altura não sabia bem por onde devia começar mas penso que as crianças são sempre aquelas que temos de sensibilizar primeiro e começámos por elas, com o ATL da Volta. A partir daí as coisas foram surgindo. Também tive sorte, porque começámos a marcar presença bastante cedo com as nossas ideias e o próprio Governo começou a encarar isso de outra forma. E chegou a uma altura que foi fácil estabelecer protocolos, fazer projectos, porque éramos muito credíveis na Secretaria da tutela. Isso foi importante. E hoje vamos notando que continuamos a ser credíveis. Os projectos que apresentamos são sempre aceites e encarados de forma muito séria.

- Gabinete de Imprensa do CNH: Quando fala em credibilidade significa que a APADIF tem sabido aproveitar os fundos atribuídos, havendo transparência na utilização dos mesmos?

- José Fialho: Refiro-me à credibilidade no aproveitamento dos dinheiros que nos são atribuídos mas, também, do que fazemos na linha evolutiva. Somos sempre fiéis ao projecto traçado e apresentado, bem como ao seu cumprimento.  

- Gabinete de Imprensa do CNH: O facto de trabalhar onde trabalha [Segurança Social] tem facilitado?

- José Fialho: Penso que não. Gosto muito de separar as águas.

Sempre que é para abordar assuntos relacionados com a APADIF procuro que não seja no serviço. Tento fazer as coisas com seriedade e entendo que o meu local de trabalho não é o sítio ideal.

“Acredito muito nos jovens!”

- Gabinete de Imprensa do CNH: Após a visita realizada a todas as valências da APADIF, reparei que convida sempre jovens para trabalhar consigo. Confia e delega funções de coordenação em gente muito nova! Estamos a falar de uma Carla Matos (ATL da Volta) muito nova, em 2002!

- José Fialho: E eu fui buscá-la a casa! Não conhecia a Carla muito bem. Ela foi-me indicada e o que me fez contactá-la foi o facto de ser uma pequena nova, sem vícios em termos de trabalho. Disse-lhe o que pretendia e até hoje ela nunca me desiludiu.

Acredito muito nos jovens! Quando vamos buscar pessoas já com ideias formatadas, é muito dificil alterarmos essas ideias mas quando se trata de um jovem, dizemos: “O nosso objectivo é este e temos de percorrer este caminho”. E eles percorrem. Algumas das minhas Coordenadoras começaram mesmo a trabalhar na APADIF. Acabaram o Curso e foram trabalhar nesta Associação e isso para mim é satisfatório, porque eu digo: “Filhas, o que nós pretendemos é isto! A meta a atingir é aquela e agora vocês vão apresentar-me as vossas ideias”. Eu deixo elas criarem! Dou liberdade e penso que isto é bom, pois elas sentem-se úteis para trabalhar, terem ideias e quando me vêem, vêm sempre apresentar uma coisa nova, dizendo: “O que é que o Sr. acha?” E isso para mim é que é o fundamental. Se eu lidasse com pessoas mais maduras, que já tivessem passado por outros locais de trabalho, provavelmente com alguns vícios, ia ser muito mais complicado.

jose fialho 3 2018

“Olho para a pessoa e tiro uma radiografia rapidamente e raramente me engano”

- Gabinete de Imprensa do CNH: É uma estratégia?

- José Fialho: Talvez. Apelo a uma sensibilidade feminina mas não discrimino géneros. Olho para a pessoa e tiro uma radiografia rapidamente e raramente me engano.

Quando começo a falar com elas, digo: “Eh, pá! É isto mesmo que eu quero”. E até à data tenho me dado bem. Têm sido boas colaboradoras.

Há dias, a propósito das comemorações do 25º Aniversário da APADIF, reuni-me com elas e disse: “Olhem minhas filhas, para este espectáculo quero isto, isto e isto. E nunca mais falei com elas a esse respeito. E quando acabou o espectáculo percebi que elas fizeram precisamente tudo aquilo que eu tinha dito. Eu expliquei-lhes o que gostava e elas criaram à sua maneira. Sentem-se realizadas e eu também me sinto feliz por isso.

- Gabinete de Imprensa do CNH: O que tem sido mais difícil ao longo destes 18 anos?

- José Fialho: Este ano tive alguns problemas com os pais, porque estão habituados a um determinado ritmo com os seus filhos e quando mexemos nisso é complicado. Isso foi devido às actividades do programa de Aniversário. Houve uma altura – espectáculo com o Teatro de Giz – em que foi preciso fazer dois ensaios por dia, durante um mês, e para alguns pais isto foi complicado, porque alterava a hora de almoço e as rotinas deles. Tive que tomar uma posição de chefe, digamos assim, dizendo: “O objectivo é este e para o atingirmos o percurso tem de ser este”. Também altero as minhas rotinas e muitas vezes janto às 11 horas da noite ou à meia-noite e nunca morri por causa disso.

No final, os pais que nos criaram alguns problemas foram os primeiros a dizer que valeu a pena todo o sacrifício. Por vezes temos de fazer finca pé e manter a nossa linha de acção traçada, caso contrário não chegamos lá.

“Só trabalhamos com coisas que os outros não querem”

- Gabinete de Imprensa do CNH: Na APADIF não há horários, o que implica grande disponibilidade...

- José Fialho: Essa é a grande vantagem de trabalhar com jovens! Quando começamos, digo sempre: “Minhas filhas, coisas boas não são para a gente. Só trabalhamos com coisas que os outros não querem. Portanto, vamos ter de trabalhar e mostrar que somos diferentes. Já sabem que se for necessário trabalhar ao sábado, ao domingo ou num feriado ou até mesmo à noite, vai ter de ser”.  Mas também sabem que quando precisam de alguma coisa, tudo é facilitado.

Encontrei essa disponibilidade nas minhas Colaboradoras e mesmo aquelas que possam não ter muita vontade, ao verem as outras fazer também acabam por fazer.

- Gabinete de Imprensa do CNH: Transformar o Moviment’Arte num Centro de Actividades Ocupacionais (ATL) é uma das grandes ambições da APADIF. Está fácil de conseguir?

- José Fialho: Não está fácil! Temos batido a muitas portas e todas se têm fechado.

- Gabinete de Imprensa do CNH: O que falta? Dinheiro?

- José Fialho: Não!

- Gabinete de Imprensa do CNH: É a existência de outro CAO na ilha que está a dificultar a viabilidade desse projecto?

- José Fialho: Sim! Existir um CAO na Horta, neste caso o da Santa Casa, tem sido um entrave, porque o argumento é de que este pode ser alargado não se justificando fazer um novo. Mas a nossa visão de CAO não é aquela e por isso nós vamos continuar a debater-nos por essa realidade. Na intervenção que fiz no 25º Aniversário, e atendendo a que estava presente a Secretária da Solidariedade Social, voltei a tocar no assunto, sublinhando que se nós tivessemos um CAO a funcionar em pleno era muito mais fácil ter outros projectos que poderiam ser ali incluídos. Mas ainda não atingiram isso.

Compreendo a posição do Governo, que também tem de gerir dinheiros. O entendimento que existe é que se trata de uma duplicação de valências uma vez que o CAO da Santa Casa da Misericórdia da Horta tem vagas para mais utentes. Mas não é bem assim. Um CAO não é uma enfermaria! Se repararem, em todas as actividades estamos presentes do princípio ao fim, ao longo de todo o dia. Não vamos lá “despejar” pessoas. O que queremos é fazer actividades com estas pessoas. E isso traz-nos mais algumas responsabilidades e despesas. O ter que levar os nossos utentes para o exterior acarreta responsabilidade e despesa mas é isso que nos tem marcado. Isso permite que a população veja a forma como trabalhamos. Por vezes, as pessoas até param para ver uma actividade nossa e isso é bom, pois o que ouvimos dizer é: “Afinal, eles [APADIF] têm capacidade e podem fazer mais”.

Lembro-me que da primeira vez que o Diogo cantou com o António, há 2 anos, uma das professoras do Diogo disse-me: “Nunca pensei que o Diogo e o António conseguissem fazer isso”. Portanto, o que nós fazemos é demonstrar que, com trabalho e sacrifício, a trabalhar duas vezes por dia se for necessário, conseguimos atingir os nossos objectivos e é isso que pretendemos: sair das quatro paredes e ir para o exterior, para as colectividades, para a Biblioteca, para os Museus, ginásios, Piscina. É isso que faz a nossa diferença e é este o entendimento que temos de CAO e não ter actividades confinadas a uma sala, a um espaço interior.  

Com um CAO, é possível termos um leque de actividades muito mais abrangente, desde Agricultura, Carpintaria, etc. Estas pessoas são capazes de fazer muito mais coisas do que nós imaginamos. Depois de aprenderem algo é muito difícil esquecerem! Eles fixam. E são muito sensíveis!

- Gabinete de Imprensa do CNH: Este tipo de valência é uma grande ajuda para as famílias que têm elementos portadores de deficiência...

- José Fialho: O primeiro trabalho que fizemos foi contactar as famílias que sabíamos que tinham pessoas portadoras de deficiência. E muitas fechavam-nas e diziam: “Ele ou ela tá bem”. A pouco e pouco foram vendo o trabalho que fomos desenvolvendo e eles próprios começaram a abordar-nos. Gostávamos de abranger alguns jovens mas por vezes é difícil. Contudo, estou esperançado de que vamos conseguir. Em certas alturas é necessário que seja a própria APADIF a ir ao encontro das pessoas, apesar de muitas nos procurarem. Quando sabemos que há alguém que necessita, não hesitamos em ir falar com a família e com a própria pessoa. Gostamos de falar com eles e com as famílias. É fundamental!

Centro de Dia vai ter capacidade para 40 utentes

- Gabinete de Imprensa do CNH: De que é que a APADIF mais precisa?

- José Fialho: Este mês comemorámos o 7º Aniversário do nosso Centro de Dia. Já temos a lotação esgotada e 13 em lista de espera – e outros que já manifestaram interesse – o que é demonstrativo do trabalho que vimos desenvolvendo. Aquele local já não serve, tem de ser ampliado. Um dos nossos primeiros objectivos para 2019 é precisamente ampliar aquele edifício. Já há contactos com o Governo e o projecto encontra-se em fase de elaboração. Com estas obras, ficaremos com uma capacidade para um total de 40 utentes.

Vai abrir mais um Centro de Dia nos Flamengos e com isto penso que nesta fase irá resolver o problema.

Temos vindo a aperceber-nos de que há uma grande necessidade de haver um Centro para alojamento temporário, onde as pessoas possam deixar os seus familiares acamados em caso de férias, deslocações, etc. Os cuidadores desgastam-se muito e penso que isso era fundamental. Temos vindo a fazer esse trabalho com o Governo, chamando a atenção para essa realidade premente.

A APADIF já fez esse trabalho mas foi interrompido, porque não era financiado e a nossa instituição não dispõe de capacidade financeira para suportar isso. Estávamos a criar um buraco financeiro por causa desse tipo de serviço.

Precisávamos de um quadro técnico maior e este mês recebi uma boa notícia nesse sentido.

- Gabinete de Imprensa do CNH: Foi uma boa prenda de anos!

- José Fialho: Sim!

Tínhamos pedido mais um Psicólogo e um Ajudante de Lar e a Presidente do Instituto de Segurança Social dos Açores (ISSA) revelou que já foi aprovado. Foi dado mais um passo.

O Psicólogo irá trabalhar no Centro de Desenvolvimento e Inclusão Juvenil (CDIJ) e o Ajudante de Lar no ATL Esperança. É uma boa ajuda mas não satifaz em pleno as nossas necessidades.

“A APADIF deve ser das instituições que mais formação interna dá”

- Gabinete de Imprensa do CNH: É fácil encontrar colaboradores formados nestas áreas?

- José Fialho: Nem sempre é possível ir buscar pessoas formadas, além de que isso tem um custo muito mais elevado. O que nós tentamos fazer é dar formaçao às pessoas em cada uma das áreas. A APADIF deve ser das instituições que mais formação interna dá, na ilha do Faial.

Temos a preocupação de reunir muitas vezes com os funcionários e são os próprios colegas – aqueles que estão mais habilitados – que dão as diversas formações. Dizemos: “Tu agora vais dar uma formação sobre esta área”. E cada um se prepara nesse sentido. Este método tem tido resultados bastante bons, pois é mais fácil para eles receberem formação dos próprios colegas do que se fossem pessoas de fora.

Temos tido pessoas que quando foram trabalhar para a APADIF diziam que não eram capazes mas no fim não foi assim. Estou a recordar-me de uma pessoa que foi lá fazer umas férias e disse: “Eu não sei se vou ser capaz. Vou tentar”.  E o que é certo é que quando teve de se ir embora saíu a chorar. Foi um bom sinal.

- Gabinete de Imprensa do CNH: Considera que a concentração de todos os serviços num só edifício representava uma poupança de recursos?

- José Fialho: Dentro da própria instituição e até mesmo colegas de Direcção acham que se as diversas valências tiverem separadas é mais benéfico. Esta é uma discussão que temos vindo a ter. Sonhar não é pecado e vamos sempre sonhando em ter estruturas mais adequadas à nossa realidade.

Entendo que devíamos ter uma estrutura para poder reunir com todas as secções. Só em combustível gastamos uma fortuna! As nossas viaturas estão muito desgastadas. A última que comprámos foi há 2 anos e a outra foi há 5. Todas as outras têm mais de 20 anos de serviço. Portanto, neste momento estamos com alguma dificuldade em transportar os nossos utentes e o facto de trabalharmos na comunidade também acarreta muito mais despesas. Mas nós gostamos que isso aconteça para mostar que afinal esta gente da APADIF é capaz! Se tivessemos tudo concentrado num só local, obviamente que seria mais económico.

- Gabinete de Imprensa do CNH: E estamos a falar de um edifício de raíz ou de adaptar algo que já existe?

- José Fialho: Bom, quanto a ser um edifício de raiz, há essa hipótese mas nós não somos malucos! Mas sonhamos e quando nos disseram que a Escola do Pasteleiro ia vagar, fomos dos primeiros a manifestar vontade de ocupar aquele espaço. Agora já se pensa no Centro de Saúde.

“Quando me dizem não, isso não me assusta”

jose fialho 4 2018

“Não tenho tido dificuldade em arranjar direcções” 

- Gabinete de Imprensa do CNH: O Sr. é um homem de fé, que sonha muito.

- José Fialho: Penso que é por sonhar muito que cheguei até aqui na APADIF.

Mesmo quando recebo um não como resposta não desisto. Não fico desmotivado, porque houve situações em que recebi um não e depois outro não, seguido de outro e só a seguir é que houve um sim. E isso aconteceu talvez porque nunca desisti. Quando me dizem não, isso não me assusta.

- Gabinete de Imprensa do CNH: As eleições na APADIF acontecem de 4 em 4 anos. Estamos a meio de um mandato que termina em 2020. Tem sido fácil formar elencos directivos?

- José Fialho: Não tenho tido dificuldade em arranjar direcções. Tento sempre ir buscar gente nova. Já tenho 64 anos, 18 dos quais à frente da APADIF, o que é cansativo. Lutamos e trabalhamos muito. Se eu tivesse reformado era muito diferente mas ter de cumprir um horário e ainda após a labuta diária fazer tudo o resto, é complicado.

“Estou a preparar as pessoas que são capazes de me substituir”

- Gabinete de Imprensa do CNH: Tenciona continuar?

- José Fialho: Não. Neste mandato convidei pessoas que acho que são capazes de me substituir. Estou a prepará-las nesse sentido. É esse o meu trabalho agora.

Quando completar este mandato, serão 20 anos de “casa”. Naturalmente que não vou desligar-me da APADIF.

- Gabinete de Imprensa do CNH: Acha que o caminho está traçado para quem vier a seguir?

- José Fialho: Quem vier a seguir tem a vida facilitada mas é uma tarefa exigente.

Acho que neste momento todos me conhecem e sabem quem é o Presidente da APADIF. Há uns dias estava num restaurante e uma senhora dirigiu-se a mim e disse-me: “Eu conheço o Sr. da APADIF mas nunca falei consigo. Mas hoje disse a mim mesma: Vou falar com ele”.

As pessoas aproximam-se e querem falar comigo e ver como é que eu sou. Dizem que eu rio pouco.

- Gabinete de Imprensa do CNH: A sua família foi o grande suporte em todo este percurso.

- José Fialho: A minha família teve um papel imprescindível. Tanto a minha mulher como os meus [dois] filhos sempre tiveram do meu lado e isso é fundamental. Quando peço algo aos meus filhos, eles são os primeiros a chegar.

- Gabinete de Imprensa do CNH: Sente o apoio das empresas?

- José Fialho: Há muita forma de apoiar e quando nos dirigimos aos empresários, apoiam e até perguntam como é que podem ajudar. E eu explico: “Com uns quilos de farinha, de açúcar...” E eles: “Ah, bom, se é isso...” e até acabam por dar mais do que aquilo que pedimos. Os comerciantes estão despertos para colaborar e às vezes recebemos telefonemas das próprias empresas a dizer: “Olha: alguém da APADIF que passe por aqui, porque temos umas coisas para vocês”.

- Gabinete de Imprensa do CNH: A APADIF conta com muitos Sócios e Voluntários?

- José Fialho: Temos mais de 400 associados e contamos com um Grupo de Voluntários que estão sempre disponíveis!

- Gabinete de Imprensa do CNH: A Revista da APADIF [“Vozes”] é feita só por Voluntários.

- José Fialho: Sim, são todos Voluntários: a Cremilde (que pertence à Direcção), a Renata,  o António, a Géni. E são Voluntários que fazem a Revista de forma muito empenhada. Só podemos agradecer!

“Apoiamos mais de 200 utentes servidos por 42 funcionários”

jose fialho 5 2018

“Quando é preciso o Presidente ir tomar um copo com elas [Colaboradoras], também vai!” 

- Gabinete de Imprensa do CNH: Qual a sua maior recompensa?

- José Fialho: Receber muitos abraços dos meus utentes.

- Gabinete de Imprensa do CNH: São muito afectivos?

- José Fialho: Muito! Estamos a falar de todos os utentes das diversas valências. Apoiamos mais de 200 utentes servidos por 42 funcionários.

- Gabinete de Imprensa do CNH: Sente-se realizado no projecto da APADIF?

- José Fialho: Bastante! Eu entro no Centro de Dia e estão ali vários idosos. Começo a falar com eles e fico parado. De repente, há uma velhota que diz: “É, ele hoje não se chega ao pé de mim. Hoje não me deu um beijo”. Eu até acho graça nisto, porque trato todos por igual e brinco com eles.

A minha grande vitória nisto são os afectos e os abraços dos utentes. As demonstrações de amizade e de apoio de que é exemplo a mensagem que tenho aqui no meu tlm e que posso mostrar, também são muito importantes! “Quero agradecer por acreditar em nós e por ser o melhor chefe do mundo e de todo o sempre. Obrigada!” Também é bom uma vez por outra recebermos coisas destas! Recebo muitas coisas destas!... Reconheço o valor das minhas Colaboradoras. Costumo dizer que elas são as minhas meninas.

Elas sabem que quando têm uma dificuldade eu sou a primeira pessoa a correr para ajudar a resolver. Tudo isto faz com que também haja esta ligação. Quando é preciso o Presidente ir tomar um copo com elas, também vai! E quando não é possível elas compreendem.  Mas sempre que elas precisam, o Presidente está lá!

Quem não tiver esta vertente muito humana não consegue trabalhar na APADIF.

- Gabinete de Imprensa do CNH: A APADIF tira-lhe umas noites de sono?

- José Fialho: Não tenhas dúvidas nenhumas! Uma noite sem dormir ainda se passa mas quando são várias!...

Por vezes ando preocupado mas perante os meus colegas e funcionários nunca demonstro. Eu é que sei sozinho como é que as coisas estão e tento resolvê-las. Há ocasiões em que tenho reuniões com os meus Colaboradores e sei que aquilo que estamos a tentar resolver é complicado mas tenho de mostrar que não é bem assim e que vamos ganhar aquela luta. Digo sempre: “Sei que podemos ganhar esta luta mas antes vamos ter de percorrer um caminho”. E isto também faz com que eles fiquem satisfeitos e depois dizem-me: “Foi dificil mas conseguimos!”

- Gabinete de Imprensa do CNH: Eles acham que o Sr. é o homem forte e que tem soluções para tudo?

- José Fialho: Sim e às vezes podem ter uma desilusão.

- Gabinete de Imprensa do CNH: Se voltasse atrás...

- José Fialho: Se voltasse atrás, não ia mudar muito. Errar é próprio do homem e sei que já cometi alguns erros. Mas penso que as directrizes que foram traçadas e aquilo que pretendia fazer foi conseguido. Naturalmente que não está tudo feito mas estamos no bom caminho.

- Gabinete de Imprensa do CNH: Recebeu uma boa herança?

- José Fialho: Há 18 anos, quando tomei posse, a equipa anterior até tinha deixado algum dinheiro. Mas isso foi a única coisa que recebi. Não havia um local para reunir. Para tanto, pedíamos aos Responsáveis pelo Ensino Especial para reunir onde hoje é a nossa sede (antigo Dispensário). Sempre que havia reuniões íamos a casa do professor buscar a chave e depois da reunião íamos devolvê-la. Não tínhamos nada e se olharmos para trás e analisarmos bem, já temos muita coisa.

“Não gosto de criticar por criticar”

jose fialho 6 2018

“Contamos sempre com a presença de alguém do Governo nestas alturas marcantes” 

- Gabinete de Imprensa do CNH: Tem no Governo um aliado?

- José Fialho: Não me queixo do Governo, contrariamente ao que costumo ouvir. Sempre que apresentamos projectos credíveis, nunca vi grandes problemas da parte deles: se é possível este ano vamos fazer, se não é, vamos pensar nisso para o próximo. O que é certo é que se não fosse com o apoio do Governo e da Câmara Municipal da Horta – temos muitos parceiros – não conseguíamos implementar tantos projectos. A Câmara tem sido crucial em todo este processo não só na parte financeira mas igualmente no apoio técnico. Por exemplo: quando pedimos colaboração em obras, são os próprios funcionários  que vão fazendo e pensando que não, poupa-se muito dinheiro na mão-de-obra. A edilidade também dá algum material e financeiramente ainda nos apoia. O Governo também nos vai dando apoios.

Não gosto de criticar por criticar. Acho que cada um tem o seu papel. Todas as entidades têm um orçamento para cumprir. Considero que tenho no Governo um bom parceiro. Nunca achei que estavam contra a APADIF.

Lembro-me que há 7 anos tivemos no nosso Aniversário o Presidente do Governo Regional. Também já tivemos a Secretária Regional da tutela que nos disse que o Teatro Micaelense ainda não enche neste tipo de actividades como acontece sempre com o Teatro Faialense. Isto consola a alma!

No dia 3 deste mês – Dia Internacional da Pessoa com Deficiência – tivemos no Teatro Faialense a Presidente do ISSA. Contamos sempre com a presença de alguém do Governo nestas alturas marcantes. E no fim vêm sempre cumprimentar-me e dizer: “Bem empregado tempo em ter vindo aqui. Gostei! O trabalho que estão a fazer é muito bom. As pessoas têm de ver para acreditar!”

“Os meus colgas de Direcção têm sido extremamente competentes”

jose fialho 7 2018

“Eu vivo de batalhas!”

- Gabinete de Imprensa do CNH: E o que dizer dos colegas de Direcção?

- José Fialho: Os meus colgas de Direcção têm sido extremamente competentes. Acreditam muito em mim. É verdade!

Tenho de agradecer a todos os que estão à minha volta, porque sozinho ninguém consegue construir seja o que for.

- Gabinete de Imprensa do CNH: É carrancudo mas credível? (Risos)

- José Fialho: Isso é engraçado, porque há dias participei numa formação e no final o formador disse: “Agora vamos fazer uma avaliação sobre cada um”. E a pessoa que estava junto de mim (era uma pequena) desabafou: “Eu quando cheguei aqui, olhei para este Sr. e pensei: “Aquele Sr. deve ser muito mau!!!” E depois ao longo da semana de trabalho ela admitiu que a análise que tinha traçado sobre mim não correspondia. E rematou, afirmando: “Afinal, ele é completamente diferente daquilo que eu pensava mas quando cheguei e olhei para ele!...”

Isto para dizer que muitas vezes nos enganamos na leitura que fazemos sobre as pessoas. E na imagem que a aparência nos transmite.

- Gabinete de Imprensa do CNH: Aquilo que lhe aconteceu aos 5 anos de idade não o deixou revoltado...

- José Fialho: A verdade é que aos 5 anos pensava pouco sobre o que me aconteceu. Era uma criança. Sofri uma queda de cavalo. A saúde era muito diferente dos nossos dias. Quando parti o braço a artéria rebentou. Os médicos não se aperceberam disso e três dias depois quando o braço já estava cheio de sangue podre teve de ser amputado.

Certamente que coloquei algumas questões a meus pais mas eles sempre tentaram influenciar-me no bom sentido. Fui para a escola e não tive grandes dificuldades, porque todos me aceitaram bem. Os próprios professores aceitaram-me muito bem e ajudaram-me bastante.

Eu próprio fui sempre um homem de objectivos. Via as outras crianças andarem de bicicleta e também queria. E quando disse isso a meu pai, imagina-se a reacção dele! Mas às escondidas comecei a andar de bicicleta e andava normalmente. Depois entendi que queria andar de mota. Foi um sarilho! Mas aí foi o meu próprio pai que fez a alteração na mota para que eu pudesse andar. Ele percebeu que era uma necessidade que eu tinha e que se eu não andasse, isso poderia marcar-me de forma negativa. Andei de mota muitos anos. Casei-me e continuei a andar de mota. O meu filho mais velho andou muito de mota comigo.

O carro também constituíu uma grande luta. Nenhum dos médicos queria assinar o atestado. Diziam que não queriam contribuir para a minha morte e eu respondi assim a um deles: “Se me passar o atestado e eu morrer de mota, morro feliz!” Mais tarde houve um que passou o bendito atestado.

- Gabinete de Imprensa do CNH: Outra batalha!

- José Fialho: Eu vivo de batalhas!

- Gabinete de Imprensa do CNH: Esta situação fez de si um lutador?

- José Fialho: Fez de mim uma pessoa mais teimosa. Sou uma pessoa calma mas quando me irrito...

- Gabinete de Imprensa do CNH: Mas é muito dialogante.

- José Fialho: Se não for pelo diálogo nada é possível. Às vezes sou criticado por ceder mas para se conseguir atingir um objectivo tem de haver diálogo e cedências de parte a parte. Naquela altura pode não acontecer o que estávamos a pretender mas mais tarde vai chegar. Tenho conseguido algumas vitórias com este sistema.

- Gabinete de Imprensa do CNH: Gosta de negociar?

- José Fialho: A negociação é um caminho que eu gosto de percorrer. Gosto muito de negociar e quem negoceia tem de ceder.

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