“Conhecer os Nossos Atletas” - Pedro Moniz: “A Vela faz-nos ter uma ligação especial com o mar”

“A Vela não é nada fácil! É um desporto difícil de aprender e de praticar. A parte prática é sempre pior pelo medo de revirar e de levar uma retrancada. Quando se começa é horrível e embora aconteça sempre à medida que vamos evoluindo, a verdade é que as retrancadas vão sendo em menor escala. Mas posso dizer que aprender Vela foi muito importante, porque é um desporto especial!” É assim que Pedro Moniz dá o mote a esta conversa, revelando que já são 8 anos a velejar, tendo começado precisamente quando tinha 8 anos de idade.

“Meu pai [Luís Paulo Moniz] tirava-me o juizo, porque queria que eu aprendesse, assim como meu padrinho [Carlos Moniz] tendo em conta que sempre tiveram barco”. Se somarmos a tudo isto a envolvência diária no Clube Naval da Horta (CNH) pelo facto de a mãe [Orlanda Moniz] ser funcionária da Secretaria, poderemos dizer que Pedro Moniz estava predestinado a ser velejador.  Mas o nosso entrevistado confessa que “já quis desistir várias vezes”, o que não sucedeu devido à firmeza do pai. “Ainda bem que isso não aconteceu, pois teria sido mau para mim”.

Este jovem já fez Esgrima e jogou Futebol no Fayal Sport mas como se tornou complicado conciliar tudo isso com as aulas, optou pela Vela e está “satisfeito” com a decisão tomada, admitindo mesmo: “Sou mais ligado ao Clube Naval do que ao Fayal Sport. Venho todos os dias para o Clube, instituição que é importante para mim, funcionando como uma terceira casa. A segunda é a Escola. Se a minha vida fosse só Vela seria bom mas sei que iria sentir a falta da Escola”.

Com a idade, Pedro passou a saber gerir melhor o tempo e por isso põe a hipótese de vir a praticar Atletismo, já que a Natação e a Canoagem não são tão apetecíveis.

“Gosto de correr. O meu professor de Educação Física sempre me disse que eu era talhado para esta área por ter boa resistência. Sou muito rápido. Se me convidarem para ir fazer o ‘Trail’ [Run], vou, pois tenho amigos nesse grupo”.

O facto de reter a matéria que é dada nas várias disciplinas também o ajuda a dispôr de mais algum tempo livre, assegurando que não estuda muito. “O que fica nas aulas fica mesmo!”

“Quando estou no mar, sinto-me muito confortável”

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“Vou querer estar sempre ligado ao mar”

Apesar de ainda não ter rumo definido quanto ao futuro – encontra-se na Área de Economia e tem na Educação Física e na Matemática as disciplinas preferidas – Pedro deixa uma garantia: “Vou querer estar sempre ligado ao mar”. E se o caminho que vier a ser trilhado não corresponder ao esperado, há sempre a saída na área da Vela: “O meu pai incentiva-me muito a fazer o Curso de Treinador. Já aprendi a montar bóias e percursos e até fiz de júri de regata. Passo muito tempo no mar e vou muitas vezes no “Tabarly” [barco de apoio do CNH]. Já fui no barco de apoio aquando da realização de alguns Triatlos, da Regata “Les Sabes/Horta/Les Sables” e em várias regatas da Secção de Vela de Cruzeiro, sobretudo no Verão.

Meu pai gosta muito que eu faça tudo isto, pois também ele praticou Vela, faz algumas regatas e costuma dar apoio a outras. Ele sempre que pode vai para o mar colaborar e puxa-me muito nesse sentido. Somos uma família de homens do mar. Quando estou no mar, sinto-me muito confortável e até gosto de dormir com agitação. Desde pequeno que sempre andei de barco. O facto de o meu padrinho ter dois barcos também ajuda. É divertido estar a apanhar ondas!

Gostava muito de fazer uma “Atlantis Cup” e espero que me convidem, pois estou disponível para integrar uma tripulação. Acho que o facto de não haver elementos mais novos nas tripulações revela falta de confiança nos jovens”.

“Gosto bastante de ensinar!”

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Pedro Moniz foi Monitor da “Vela Espectacular” do CNH em 2018 tal como em 2017

Questionado sobre o que considera difícil na Vela, responde: “Estar focado em muita coisa ao mesmo tempo torna-se complicado. E ir para o mar sem saber muito assusta, sobretudo o treinador! Como fui Monitor de Vela em 2017 e 2018, consigo pôr-me no lugar do treinador e realmente assusta percebermos que temos ali vários atletas que ainda não dominam a situação.

Em 2017, o Duarte convidou-me para eu ser Monitor na “Vela Espectacular” e em 2018 manifestei vontade de voltar a ser. E sinceramente é algo que pretendo voltar a ser este ano. Gosto bastante de ensinar! Ponho mesmo a hipótese de vir a ser treinador, tendo em conta que tenho muita paciência para ensinar. Aliás, acho que tenho mais paciência do que o Duarte [Treinador de Competição e Coordenador da Escola de Vela do CNH]. E prefiro ensinar os mais pequenos por serem mais mexidos, tal como eu. São mais o meu tipo.

Na minha opinião, a “Vela Espectacular” funciona como uma escola de formação que ajuda a garantir o futuro da Secção de Vela Ligeira do CNH. Neste Projecto, há uma pequena percentagem que se safa, uma vez que a Vela exige um certo carácter, o que significa ser, especialmente muito corajoso.

Começar a praticar em pequeno é o melhor, embora assuste quando está vento. Revirar também assusta assim como as retrancadas que, como já disse, vão acontecer sempre.

Também costumo acompanhar os treinos da Classe Hansa [Vela Adaptada]. Vou com o João Duarte [Treinador] e gosto muito! Para mim, estes atletas são velejadores como todos os outros do Clube e sabem tanto quanto a gente. A única diferença entre nós e eles é a parte física. O meu pai também costuma colaborar com a Classe Hansa e faz mesmo equipa com um velejador da Classe 303. Eu gostava de competir contra o meu pai mas confesso que tenho algum receio de perder e não gosto de perder!”

“O Duarte é exigente e isso torna-nos melhores”

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“Não gosto de perder!” 

Ao longo destes 8 anos, Pedro Moniz conheceu diferentes treinadores, recordando os nomes de Emídio Gonçalves, Pedro Cipriano, o próprio pai que deu alguns treinos e Duarte Araújo, o actual Técnico. “Não me lembro tão bem dos outros como do Duarte, uma vez que já está connosco desde 2014 e é muito positivo ser sempre o mesmo, ou seja, não haver alterações/substituições. Posso dizer que o Duarte é um bom treinador e também um amigo. É exigente e isso torna-nos melhores. Por vezes é preciso ele dar um berro para chamar a atenção mas isso acontecia mais nos Optimist. Actualmente, já estou na Classe Laser, que é bem mais difícil do que a anterior (Optimist).

Onde estamos mais desfalcados é nos 420 e isso explica-se pelo facto de todos começarem a praticar Vela quando são pequenos, o que faz com que haja um maior número de velejadores nos escalões mais iniciais e fáceis, digamos assim. Quando atingimos a idade para mudarmos para a Classe 420 é numa altura em que tudo se torna mais difícil, incluindo o facto de irmos estudar fora do Faial. Esta situação também acontece noutros clubes”.

Maior ligação entre as Escolas e o CNH

“Gostava que houvesse mais gente na Vela e no que diz respeito aos mais pequenos, isso está a ser uma realidade. Se os mais pequenos tiverem alguém que insista com eles é bom mas é preciso ter muito cuidado para não se assustarem ao ponto de desistirem. A primeira experiência é muito importante!

A campanha de promoção e divulgação que o CNH faz no Ciclo [Escola Básica Integrada António José de Ávila, da Horta] também deveria acontecer na Secundária [Manuel de Arriaga] tendo em vista a captação de novos atletas.

Na Escola, os meus amigos perguntam-me várias vezes como é a Vela e apesar de eu dar o meu melhor para eles perceberem, é difícil! Só mesmo praticando e estando lá.

Não há uma idade certa para começar na Vela mas quem inicia em pequeno é melhor.

Seria muito interessante que, tal como já acontece na Básica, também na Secundária houvesse Vela em termos curriculares e que os alunos da Manuel de Arriaga viessem ao Clube em visita de estudo. Todos ganhavam se houvesse uma maior ligação entre estes estabelecimentos de ensino e o Clube Naval da Horta”.

“O meu objectivo é ir aos Nacionais” 

Pedro reconhece a qualidade dos velejadores de outras ilhas e do Continente português e no CNH elege como referências Tomás Pó e Jorge Pires. “Admiro muito o Tomás e o Jorge. Aprendemos muito com as conversas que temos. Gostava de seguir o percurso deles: ser “Jovem Talento” e ir aos Nacionais.  Os melhores fazem muito treino.

Ter mais Campeonatos Regionais nos Açores dava jeito, pois são excelentes momentos para aprendermos. Nos treinos também aprendemos mas isso depende do que fazemos e daquilo que o Duarte puxa por nós. Quando há vento, por vezes o Duarte leva-nos ao extremo”.

Este atleta revela que o seu grande objectivo é ir aos Nacionais na próxima época com o intuito de tentar seguir as pisadas dos melhores do CNH. “Fora do Faial aprende-se mais, pois, cá dentro a competição é muito limitada.

Tenho amigos no Pico, Terceira e São Miguel e devido à proximidade seria muito bom que o Pico tivesse mais velejadores, o que permitiria haver competição. Chegámos mesmo a participar nalgumas provas com os nossos vizinhos, em que destaco o Madruga [Alexandre], da Madalena”.

No Clube Naval da Horta, Pedro vê “muito potencial” nalguns velejadores e cita nomes como Maísa Silva, David João ou Manuel Bettencourt.

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“Gostava muito de fazer uma “Atlantis Cup” e espero que me convidem, pois estou disponível para integrar uma tripulação”

“Na Vela há um espírito de equipa”

Quando tiver de sair do Faial para prosseguir estudos, Pedro quer continuar a praticar. “A Vela é muito importante para mim. Representa pelo menos metade do meu ano. Apesar de virmos estafados do mar, pois os treinos são de 4 horas – e eu gostava de treinar mais e acho mesmo que devíamos fazer exercícios de aquecimento – sinto falta da Vela. Este desporto implica aprender muito em terra, preparar tudo e afinar os barcos. As pessoas pensam que é chegar ali e pôr o barquinho no mar mas não é assim tão simples. Há muito trabalho de preparação!

Vestir o fato molhado é a parte má nisto tudo. E quando acaba o treino é preciso tirar a Vela do Laser, lavar o barco e arrumá-lo. Estamos a falar de uma modalidade difícil, trabalhosa!... Por tudo isto, a Vela faz-nos ter uma relação especial com o mar. É um desporto diferente.

Tenho mais amigos desde que estou na Vela e os colegas mais antigos e de quem sou mais amigo é do Tomás e do Jorge. Há um espírito de equipa. E esse é um aspecto que a Mariana [Luís, Monitora] está a trabalhar com os mais pequenos. Somos bastante competitivos no mar mas em terra somos muito amigos. No mar não pode haver amigos mas nos treinos ajudamo-nos uns aos outros.

Considero que a Vela é um desporto também para meninas. Por norma, as nossas ganham sempre, como é o caso da Maísa e da Mariana Luís, que agora já é Monitora! Eu também gostava de um dia vir a ser Monitor!”

“A Vela ensina a desenrascarmo-nos”

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“A Vela é o gajo que está agarrado ao leme”

No entender deste velejador, “o que faz mais falta são velas, porque são alvo de um grande desgaste”. Mas desengane-se quem pensa que o equipamento é tudo! “O que interessa é ser um bom velejador. O equipamento é o bónus. Se eu tiver um bom barco e não souber velejar, não adianta de nada mas se o equipamento for fraco e o atleta for capaz, aí é que se vê o valor do velejador”.

Instado a explicar o que é a Vela, Pedro Moniz define a mesma na sua linguagem muito própria: “A Vela é o gajo que está agarrado ao leme. E o que pode correr muito mal numa regata é o mastro partir-se. Posso dizer que já parti uma espicha [nome dado ao pau que, preso ao mastro, sobe em diagonal para segurar a vela trapezoidal de certas embarcações como a do Optimist]. Mas temos de improvisar e a Vela ensina a desenrascarmo-nos. No mar, é preciso saber fazer nós e alguns não são nada fáceis”.

Quanto a novas descobertas, Pedro revela que gostava de experimentar a Classe 420, o que seria sinónimo de velejar com um colega, embora essa consonância não o assuste, porque “quem está ao leme é que manda”. “O velejador mais pequeno vai para o leme. Temos de tomar decisões em conjunto mas a última palavra há-de ser do timoneiro.

No CNH, apostamos muito na segurança. Cada um de nós que anda na Competição já presenciou pelo menos um acidente, de que tenha resultado um mastro partido ou um barco revirado sem conseguir voltar-se e no caso de um 420, isso é bastante complicado”.

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“Aprender Vela foi muito importante, porque é um desporto especial” 

O lado B de Pedro Moniz 

O entrevistado de hoje da rubrica “Conhecer os Nossos Atletas” é caranguejo de signo e afirma-se sportinguista, tal como o pai. Nos seus tempos livres vê “muito” futebol mas não dispensa a série televisiva os “Simpsons”. O Futebol também preenche algum do seu tempo vago.

Se lhe perguntarmos qual a qualidade que destaca, afirma que está “sempre animado” e que gosta de ajudar. Já em sentido inverso, diz ser “muito desorientado e teimoso”. Pedro é um jovem que fica pela sua cabeça não indo atrás daquilo que os outros traçam.

Gosta de informática (não tanto quanto o pai) e tem na francesinha o seu prato preferido.

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Pedro Moniz: “Ponho mesmo a hipótese de vir a ser treinador, pois tenho muita paciência para ensinar”

Pedro: segue a tua vocação de ensinar dentro da modalidade favorita, aliando diversão ao mundo náutico. Mantém a boa disposição, vontade de inovar e disponibilidade para ajudar outros a crescer e a serem cidadãos de corpo inteiro.

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