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Festival Náutico - dia 2 de Agosto: Internacional Miguel Arrobas concretiza sonho antigo ao fazer a travessia a nado do Canal Pico-Faial
Enfrentar as águas dos Açores era um sonho antigo para Miguel Arrobas, embaixador das águas livres desde 2003. Por isso, não pensou duas vezes quando o líder do Grupo Nadar Açores, Vítor Medina, da ilha Terceira, lhe propôs atravessar a nado o Canal Pico-Faial, o que vai acontecer este sábado, dia 2 de Agosto, sendo as caravelas a sua única preocupação.
Este amante do desporto radical sublinha que sem a família (onde não há antecedentes desportivos) nunca teria conseguido alcançar nenhum destes feitos, recordando que a travessia mais dura que fez foi entre os Farilhões e Peniche.
É conhecido como o “Champion du Monde” pelo facto de ter sido o nadador mais rápido na travessia do Canal da Mancha, em 2008, associando (quase sempre) os seus desafios a causas sociais. Está apresentado o ex-nadador olímpico Miguel Arrobas, o único ultramaratonista no mundo pai de 6 filhos (o mais velho tem 11 anos e o mais pequeno 10 meses), que descobriu ter raízes faialenses, pelo lado da avó materna. Por isso, a vinda ao Faial será também um encontro com o passado, ligado à figura do primeiro Presidente da República Portuguesa, Manuel de Arriaga.
Gabinete de Imprensa do Clube Naval da Horta: Como surgiu esta iniciativa de vir fazer a travessia do Canal Pico-Faial?
Miguel Arrobas: Era um sonho antigo. Depois de ter feito a travessia entre a Ilha da Madeira e as Ilhas Desertas em 2006, pensei que um próximo passo seria enfrentar as águas dos Açores. Este projecto concretizou-se por via de um convite que me foi endereçado pelo nadador terceirense, Vítor Medina, a quem respondi afirmativamente no minuto seguinte pois ia ao encontro do que vinha planeando.
G. I.: Trata-se de uma travessia em grupo, mas realizada de forma solitária. Classifica-a como?
Miguel Arrobas: Sim, vamos em grupo, mas trata-se de uma travessia solitária. Não é nenhuma competição até, porque, o grande desafio deste tipo de travessias é mesmo o chegar à outra margem. É uma travessia que pode apresentar várias dificuldades. Em termos de distância, não lhe chamaria difícil, mas se as condições atmosféricas não ajudarem, pode ser bem difícil.
G. I.: Qual a distância deste percurso?
Miguel Arrobas: Cerca de 7 quilómetros. No entanto, com o efeito das correntes, contamos nadar cerca de 9 quilómetros.
Miguel Arrobas há muito que acalentava o sonho de experimentar as águas dos Açores
G. I.: Este percurso insere-se nalgum recorde ou é apenas mais uma travessia no seu palmarés?
Miguel Arrobas: É mais uma travessia que enfrento. No entanto, gostaria que ficasse registado o nome de todos os que conseguirem fazê-la a fim de figurar no histórico. Segundo me disseram, esta travessia ainda nunca foi feita neste sentido e, se assim for, o recorde será estabelecido por todos os que a enfrentam pela primeira vez.
G. I.: O que é que o preocupa nesta travessia?
Miguel Arrobas: As caravelas. As águas vivas não me preocupam. Por isso, no dia da travessia (2 de Agosto) consoante as condições, poderá ser ponderada a utilização do fato como forma de protecção. Naturalmente, que quem nada com fato está mais favorecido e o objectivo de todos é realizar a travessia da forma mais natural possível.
G. I.: Conta com uma equipa de apoio, patrocinadores…?
Miguel Arrobas: A minha equipa de apoio tem sido, ao longo dos anos, a minha mulher, o meu irmão e o meu treinador. Claro que não posso esquecer a equipa que fica em terra e que cuida dos meus filhos (que agora são 6) enquanto eu vou nadar para os mais variados sítios. Fui tendo patrocinadores para as grandes aventuras que já fiz e que ajudam a suportar todos os encargos. Actualmente, tenho o apoio do Eggcellent (projecto na área da restauração em Lisboa) e da Zoggs (material desportivo cedido pela Rotapro).
G. I.: Da sua equipa, quem é que vem ao Faial?
Miguel Arrobas: Estava previsto ser a minha mulher, mas com 6 filhos há sempre imprevistos. E assim sendo, como o bebé, que tem 10 meses, está internado com uma pneumonia, vou ter de ir sozinho.
O “Champion du Monde” frisa bem que sem a família nada disto teria sido possível
G. I.: De que tipo de apoio necessita durante a prova?
Miguel Arrobas: Apenas preciso de alguém que me dê o gel energético, água e algum alimento, mas sem nunca tocar no barco de apoio. Isso acontecerá durante as pausas que farei de 45 em 45 minutos ao longo das 2 horas que penso demorar a fazer a travessia.
G. I.: Tem sempre uma equipa de apoio?
Miguel Arrobas: Sempre! Nadar uma travessia sem apoio pode levar a desfechos inesperados e risco de morte.
G. I.: Nasceu em Lisboa. Conhece os Açores?
Miguel Arrobas: Nasci em Lisboa, vivi na zona de Oeiras, depois em Cascais e agora em Sintra. Nos Açores, conheço apenas São Miguel e Terceira, pois foi aí que passei parte da minha lua-de-mel. Mas a minha avó materna é de famílias faialenses (dos Arriagas, da linhagem do primeiro Presidente da República), por isso a minha passagem pelo Faial representa um encontro com o passado. Vai ser muito bom!
G. I.: Isto de fazer travessias, começou quando e como?
Miguel Arrobas: Fui nadador olímpico em Barcelona, em 1992 e campeão e recordista nacional de várias distâncias da natação pura. Ainda novo, acabei por desistir (em 1994) por muita saturação e por querer viver a idade que tinha (19 anos). É muito exigente a vida de um atleta e nadador de Alta Competição. Mas o desporto sempre fez parte da minha vida e acabei por me dedicar ao pólo aquático e, mais tarde, às artes marciais (Jiu Jitsu). No entanto, e como sempre adorei nadar, a água voltou a chamar e em 2003 decidi regressar às piscinas, mas com a ideia de competir em águas abertas e fazer travessias. Daí até pensar nas grandes travessias mundiais, foi um instante.
G. I.: Há quanto tempo se dedica a este desporto/competição? Pode ser encarado como um desporto ou é uma competição?
Miguel Arrobas: A natação em águas abertas é um desporto (aliás, olímpico e a 5ª vertente da natação desde os Jogos de Pequim em 2008) da mais pura competição. As travessias são uma forma de, em águas abertas, desafiar a natureza e viver boas aventuras. Desde 2003 que me dedico às travessias a nado.
Miguel Arrobas é um ultramaratonista na “aventura” e na vida, se tivermos em conta as travessias exigentes já realizadas e a sua vasta descendência, composta por 6 filhos
G. I.: Qual a travessia mais dura realizada até hoje?
Miguel Arrobas: A mais dura que finalizei, acho que ainda continua a ser a travessia entre os Farilhões (Arquipélago das Berlengas) e Peniche, em 2008. Mas não esqueço a travessia do lago Bibane, na Tunísia, onde acabei por ficar cerca de 3 horas sem comer nem beber durante o percurso. Claro que a travessia do Canal da Mancha foi especial por ser a mais emblemática do mundo e só não a considero a mais difícil, porque estava de tal forma preparado e motivado, que consegui ultrapassar as dificuldades mais facilmente.
G. I.: Quais as travessias mais emblemáticas ou significativas feitas até agora?
Miguel Arrobas:
- Travessia Madeira/Ilhas Desertas, em 2006
- Travessia Berlengas a Peniche, em 2007
- Canal da Mancha, em 2008
- Estreito de Gibraltar, em 2009
- Travessia do Golfo de Gabés, na Tunísia, em 2009
- Volta à Ilha de Manhattan, em Nova Iorque, em 2011
G. I.: É possível enumerar todas?
Miguel Arrobas: Para além das acima mencionadas, refiro ainda:
- Travessia entre Alhandra e o recinto da Expo 98, em 2006
- Travessia entre Lagos e Portimão, em 2006
- Travessia entre a Lagoa de Santo André e Sines, em 2007
- Travessia Farilhões a Peniche, em 2008
- Travessia do Lago Bibane, na Tunísia, em 2009
- Travessia de Peniche para as Berlengas, em 2010
- Sines a Porto Côvo, também em 2010
G. I.: Isto é uma forma de continuar a nadar, atendendo a que era nadador olímpico? O que é que o move?
Miguel Arrobas: Move-me a enorme paixão que tenho pela natação e o gosto em nadar ao ar livre e em contacto directo com a natureza. Gosto de desafiar os meus limites perante as mais diversas adversidades e a possibilidade de juntar causas sociais às minhas travessias fruto da visibilidade que tenho por ser o único português, praticamente.
G. I.: É muito solicitado? Qual o convite que mais o surpreendeu?
Miguel Arrobas: O suficiente. Não me considero nenhuma estrela. Dois convites de que me recordo bem aconteceram em 2009 e em 2010. Em 2009 fui convidado pelo Governo da Tunísia para atravessar o Golfo de Gabés. Esse convite surgiu por ter sido o nadador mais rápido, em 2008, na travessia do Canal da Mancha e por isso fui sempre apresentado como o “Champion du Monde”, até mesmo nas entrevistas à Comunicação Social.
Em 2010, recebi um outro convite, que considero fora do comum. A Nissan (marca de automóveis) reconhecendo os meus feitos no mar, convidou-me a entrar numa das maiores provas do mundo de BTT, no Deserto. Foi a Nissan Titan Desert e tive de pedalar 500 quilómetros em 5 dias em condições de temperatura dificílimas! Mas consegui, e marca para sempre a minha história.
G. I.: Profissionalmente é jurista. Consegue conciliar o emprego e a “aventura”?
Miguel Arrobas: Consigo, com dificuldade, claro. É que para além de tudo isso não descuro a minha prioridade com a família e tendo 6 filhos, não é fácil mesmo! Mas consigo com muita organização, gosto e abdicando de algumas coisas.
G. I.: O que é preciso para entrar neste tipo de desafio?
Miguel Arrobas: Muito treino, gosto e coragem. Muitas das travessias organizadas e históricas exigem prova de determinadas características, como por exemplo o treino em águas frias (de referir que não são permitidos fatos isotérmicos na maior parte delas).
G. I.: Treina muito? Onde?
Miguel Arrobas: Não tanto como gostaria, claro. Agora treino, sobretudo, no mar de Cascais e no ginásio. Vou passando por algumas piscinas.
G. I.: Pensa continuar até quando?
Miguel Arrobas: Até poder. Há nadadores internacionais que, mesmo aos 60 ou 70 anos de idade, atravessaram o Canal da Mancha. Com a idade, perde-se resistência e rapidez, mas não o entusiasmo.
G. I.: Qual a compensação que retira disto?
Miguel Arrobas: Apenas ao nível do cumprimento de objectivos e de que, quando se acredita numa coisa, se acaba por conseguir realizá-la. Digo sempre que o chegar ao fim de uma travessia é um sonho concretizado e um objectivo alcançado e na maior parte das vezes a exigir um enorme esforço para chegar ao fim.
G. I.: Não considera perigoso o que faz? Gosta mais de nadar no mar ou em rio? Porquê?
Miguel Arrobas: Assim posta a pergunta acho que gosto mais de mar. Perigoso pode ser que sim, mas os riscos são controlados. O perigo vem de riscos de hipotermia (já tive uma urgência de hospital em 2011), cansaço extremo e, em alguns casos, a presença de fauna marinha mais perigosa. Também há fortes possibilidades de desidratação.
Quase sempre as causas sociais estão associadas às travessias deste ex-nadador olímpico
G. I.: É visto como um exemplo? Por quem? Em que termos?
Miguel Arrobas: Pelo universo da natação, pela família e por quem me cruzo. Faço palestras em escolas e empresas sobre a importância do trabalho em equipa (sem equipa de certeza que não consigo os meus objectivos), da perseverança e de acreditarmos nos nossos sonhos.
G. I.: Como classifica o que faz?
Miguel Arrobas: Algo radical e de aventura extrema muitas vezes.
G. I.: Faz travessias a favor de alguma causa?
Miguel Arrobas: Quase sempre aliei as minhas travessias a causas sociais. Apoiei a Associação Portuguesa do Síndrome de Asperger (Autismo) e a Associação Portuguesa dos United World Colleges com a minha travessia do Canal da Mancha. Também colaborei com a Casa do Gaiato, em 2009, com a travessia do Estreito de Gibraltar. Mas também apoio no sentido de fazer passar mensagens, como por exemplo a da protecção dos golfinhos, em 2008, tendo mesmo sido nomeado Embaixador das Nações Unidas para o Ano Internacional do Golfinho.
G. I.: Há muitos portugueses a fazerem isto ou são mais estrangeiros?
Miguel Arrobas: A natação em águas abertas é dos desportos com maior crescimento a nível mundial. Em termos de ultramaratonas a nado e travessias, tirando casos muito pontuais, acabo por ser o único português com projectos de realizar as grandes travessias, constando mesmo na lista dos nadadores que estão a caminho de realizar as já míticas “Oceans Seven”. Ao nível competitivo e na distância olímpica de 10 quilómetros, isso é um feito conseguido já por inúmeros portugueses.
G. I.: O que é mais importante: o físico ou o psicológico?
Miguel Arrobas: Um sem o outro, nada faz. Preciso de muito treino físico, mas também de muita preparação psicológica.
G. I.: O que faz habitualmente antes de uma travessia?
Miguel Arrobas: Descanso e planeio como fazer a travessia e as paragens que vou realizar para abastecimentos e como vou fazê-las.
G. I.: Sente-se reconhecido?
Miguel Arrobas: Acho que sim….
Miguel Arrobas: “Preciso de muito treino físico, mas também de muita preparação psicológica”
Fotografias cedidas por: Miguel Arrobas
Os 12 nadadores que vão fazer a travessia a nado do Canal Pico-Faial, no dia 2 de Agosto de 2014:
Terceira:
1.Vitor Medina (líder do Grupo Nadar Açores)
2.Duarte Simões
3.Nuno Braga (sobrinho do bispo D. António de Sousa Braga)
4.Rodrigo Ferreira (filho de Duarte Simões)
5.Letícia Toste
6.João Medeiros
São Miguel:
1.Ricardo Bettencourt (Professor de natação)
2.Francisco Menezes
3.Camilo Moniz (Presidente da ZON)
4.Miguel Furtado (faz 1 km em 14 minutos, em piscina)
Faial:
1.Vitor André (praticante de atletismo)
Continente português:
1.Miguel Arrobas (Embaixador das águas livres desde 2003)