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Novo Monitor da Escola de Vela do Clube Naval da Horta defende “mais quantidade com qualidade”

Licenciou-se em Arquitectura (possuindo uma Pós-Graduação em Avaliação Imobiliária) e exerceu a profissão, mas a sua paixão sempre foi a Vela, desporto que começou a praticar aos 6 anos de idade na Associação Naval de Lisboa. O desemprego provocado pela crise em que se encontra mergulhado o país, fez com que tenha vindo parar aos Açores onde, curiosamente, está a fazer do seu gosto pelo mar e pela Vela a sua nova vida profissional. Trata-se de José Miguel Barros, o novo Monitor da Escola de Vela do Clube Naval da Horta (CNH), que se sente “muito feliz” por fazer agora o que mais gosta: estar ligado ao mar, aos barcos e ensinar! Motivar os velejadores e dar-lhes as bases para que possam evoluir e atingir um nível qualitativo superior, são objectivos do novo reforço do CNH, que já se inscreveu num Curso de Treinador porque, garante, não tem outro objectivo que não seja este.

O Gabinete de Imprensa do Clube Naval da Horta esteve à conversa com José Miguel Barros com o intuito de conhecê-lo e perceber as suas motivações.



Gabinete de Imprensa do Clube Naval da Horta: Como surgiu a oportunidade de ser Monitor de Vela do CNH?
José Miguel Barros: Sou natural de Lisboa onde vivia e trabalhava como arquitecto, mas o desemprego atingiu-me, assim como à minha mulher, que é natural de São Jorge. Neste novo cenário, e com uma filha de 2 anos, decidimos vir para os Açores (São Jorge) em Maio deste ano. Respondi a um anúncio para o Clube Naval de Santa Maria, onde trabalhei durante 2 meses e posteriormente respondi a outro para a Empresa Sailazores (aluguer de veleiros e barcos nos Açores) tendo sido chamado para a Horta, onde estão os 4 veleiros de aluguer desta empresa, que no próximo ano aumentará a sua frota para 6, e onde tenho todo o gosto em trabalhar e poder ajudar a crescer junto com ela. Uma vez no Faial, foi através do Duarte Araújo (Treinador de Vela Ligeira no CNH) que conheço desde os 8/9 anos, que fiquei a saber que o Clube Naval da Horta estava a precisar de um Monitor para dar apoio ao Treinador de Vela Ligeira.

Gabinete de Imprensa do CNH: Como conheceu o Duarte Araújo?
José Miguel Barros: Embora eu seja de Lisboa e o Duarte do Porto, o facto de fazermos regatas a nível nacional fez com que nos tenhamos conhecido desde os Optimist, eram ambos umas crianças.


José Miguel Barros: “É óptimo estar nos Açores e já não penso voltar para Lisboa”

Gabinete de Imprensa do CNH: A Vela acompanhou-o sempre ao longo da sua vida?
José Miguel Barros: A Vela é um hobbie de fim-de-semana, que pratico desde os 6 anos de idade, na Associação Naval de Lisboa. É aquilo de que eu mais gosto. Se pudesse dedicava-me só à Vela, pois gosto muito de barcos, regatas (participei há 2 anos na Atlantis Cup) de dar aulas e de ensinar. Depois, comecei a fazer competição. Passei dos Optimist para os 420. Entretanto, ainda fiz Laser e depois realizei algumas regatas de Cruzeiro e Snipe. Desde os 18 anos que dou aulas de Vela, mas em Lisboa jamais iria trabalhar nesta área, pois o mercado está saturado. Nunca pensei vir para os Açores e haver tantas oportunidades de trabalho no meu hobbie, naquilo de que gosto e poder ver o mar e estar nos barcos todos os dias, o que é excelente. Não tenho outro objectivo que não seja este. Foi um bom recomeço.

É óptimo estar nos Açores e não sinto falta de muitas das coisas que tinha em Lisboa. A maior parte dos meus amigos, ligada à área da construção, foi trabalhar para o estrangeiro, porque em Portugal a situação não está famosa.

Gabinete de Imprensa do CNH: Vai ser fácil conjugar a actividade na Sailazores e no CNH?
José Miguel Barros: No Verão poderá ser um pouco mais complicado, porque os charters entram e saem ao fim-de-semana, mas no Inverno como faço a parte de manutenção dos barcos que não operam nesta altura do ano, fico com mais tempo livre ao fim-de-semana.

Gabinete de Imprensa do CNH: Como está a decorrer o trabalho no Clube Naval da Horta?
José Miguel Barros: Estou como Monitor no CNH há pouco mais de um mês, dando apoio ao Treinador Duarte Araújo nas Classes 420 e Laser de Vela Ligeira. Acho óptimo e gosto muito de ensinar e de ajudar os alunos a evoluir.

Quero que os meus alunos saibam o que estão a fazer e o que devem fazer numa regata (competição). Vão ser realizadas regatas a nível regional e se existir um esforço grande e eles souberem o que fizeram de correcto e de errado numa regata, já é excelente.

Em Lisboa sempre tive dificuldade em viver junto ao mar. Para fazer Vela, tinha de apanhar o autocarro e demorava cerca de 30 minutos para chegar ao Clube de Vela, em Belém, e agora tenho este privilégio, que nunca pensei vir a ser uma realidade. Fico no CNH por tempo indeterminado, pois já não tenho intenção de voltar para Lisboa.

Gabinete de Imprensa do CNH: Para ser Treinador falta-lhe a formação específica.
José Miguel Barros: Sim, e para isso já me inscrevi no Curso de Treinador. Quando fui treinador em Lisboa e no Porto (onde vivi 2 anos) dava aulas ao fim-de-semana e na altura não era exigida esta formação específica como agora. Estou a pensar avançar para isso logo que possível, porque tenho todo o interesse em aprender e ver em que é que posso melhorar. Considero que é uma mais-valia para mim e para o Clube.

Gabinete de Imprensa do CNH: O que acha do facto de haver pouca competição nos Açores?
José Miguel Barros: É uma realidade muito diferente do que se passa no resto do país. Sempre que há uma regata noutra ilha ou a nível nacional, sair do Faial é como fazer regatas na Austrália (como forma de expressão), porque o material tem de ir em contentores para outra ilha. Em Portugal continental, basta pôr os barcos no atrelado e vamos embora para qualquer lado.

É pena que assim seja, porque os Açores têm condições excelentes para a prática da Vela. Muita da experiência das regatas requer mais participantes, pois é assim que os velejadores atingem um nível com maior qualidade. Quanto maior for o número de participantes, mais competição e qualidade existe.


“Já percebi que nos Açores não se paga para praticar qualquer tipo de desporto, o que faz com que os miúdos estejam envolvidos em muitos e talvez não se aperfeiçoem em nenhum”

Gabinete de Imprensa do CNH: Quando diz que os Açores têm condições excelentes para a Vela está a referir-se à natureza?
José Miguel Barros:
E não só. Eu para fazer Vela em Lisboa, além de ter de percorrer uma grande distância de autocarro, havia ainda a questão financeira, pois os meus pais tinham de pagar uma mensalidade. E eu só ia porque tinha essa iniciativa e esse gosto. Fazia questão de ir. Tinha um barco por mérito e cuidava dele. Por isso eu digo que cá existe algo muito melhor do que no Continente português, que é o facto de os velejadores não pagarem nada, utilizando todo o material do Clube, fazendo disto como se fosse um desporto da Escola. Se calhar as pessoas ainda não se aperceberam muito bem disto. Já percebi que nos Açores em qualquer tipo de desporto não se paga, o que é muito bom. Por esta razão existem muitos desportos e todos os miúdos fazem muitas coisas e talvez por isso, provavelmente, não se aperfeiçoam em nenhum se não houver um gosto acentuado por um determinado desporto.

Gabinete de Imprensa do CNH: Considera isso uma desvantagem?
José Miguel Barros: Acho que havendo uma divulgação e aprendizagem maior, a mentalidade e formação dos miúdos poderá vir a mudar. Eles têm de estar motivados e querer vir aos treinos e aprender. Devem gostar do que estão a fazer. Às vezes é difícil conciliar desportos de fim-de-semana, como o voleibol ou futebol. Os atletas estão muito dispersos e alguns, sobretudo os mais novos, ainda não sabem muito bem o que querem seguir.

Gabinete de Imprensa do CNH: Os miúdos têm responsabilidade em relação ao material do Clube?
José Miguel Barros: Noto que têm vindo a ser sensibilizados para a necessidade de cuidarem do material que utilizam. Quem é mais responsável, vem aos treinos e tem alguns resultados, tem material melhor e quando houver uma selecção também estará contemplado. É muito importante os velejadores terem atenção com o barco, os carrinhos, os cabos, as capas, etc, porque isso também os faz ganhar responsabilidade para as regatas lá fora.

Eu com 10 anos possuía um barco próprio e tinha de cuidar dele, caso contrário ninguém o fazia. Para ir a regatas fora de Lisboa, tinha de ser eu a amarrar o barco no atrelado com as cintas. Se ele caísse a responsabilidade era minha e quando chegasse a casa ainda podia apanhar por causa disso. Se perdesse material, a responsabilidade também era minha porque tudo isto era um investimento familiar. Neste contexto, sinto que deve haver uma maior atenção dos atletas em relação a tudo o que o Clube lhes faculta para eles desenvolverem o seu desporto preferido.

Gabinete de Imprensa do CNH: A Vela é um desporto importante na vida deles?
José Miguel Barros: A formação inicial da Vela faz (Optimist) faz com que miúdos muito pequenos tomem decisões importantes muito cedo. Quando estão na água dentro de um barco, num ambiente que não o seu, têm de tomar decisões. E isso cria responsabilidade e também os ajuda na formação enquanto cidadãos, o que poderá ser benéfico no futuro. E essa vontade de querer e esse gosto vêm não só com aquilo que lhes é dado ao nível da formação, mas também com o que depois recebem em troca: as regatas, que são um benefício, uma competição, estarem a fazer Vela por um objectivo.

Gabinete de Imprensa do CNH: O que achou dos seus novos alunos?
José Miguel Barros: Sinto que querem aprender e saber mais. Já lhes disse que nisso os posso ajudar esclarecendo as dúvidas no sentido de atingirem um patamar mais elevado de forma mais rápida do que chegando lá por experiências próprias. É claro que por experiência própria tinham de vir treinar todos os dias e aprender com os erros, mas tendo ajuda e sabendo o que fizeram bem ou mal, poderão atingir um nível mais elevado mais rapidamente. Apesar disto que referi, nada os impede de treinarem mais sempre que quiserem e puderem, pois o objectivo é aumentar o trabalho com vista ao crescimento e aperfeiçoamento.

Gabinete de Imprensa do CNH: Poderiam ser em maior número?
José Miguel Barros: Sim, acho que poderia haver mais miúdos na Vela. Naturalmente que para isso era preciso ter mais barcos. Se houvesse estas condições em Lisboa, o Clube estava sempre a abarrotar e haveria lista de espera para entrar, pelo menos para experimentar. É claro que há miúdos que vêm por imposição dos pais, mas nesses casos não resulta. Para hobbie, existem os Cursos de Verão. No Inverno tem de ser um bocado mais puxado, mais técnico, e aí requer gosto. Há miúdos que vêm experimentar e no fim dizem: “Afinal, gosto mesmo disto!”

Em Lisboa, eu dava aulas aos sábados e domingos, durante todo o dia. Estamos a falar de treinos que começavam às 10 da manhã e terminavam perto das 5 da tarde, com almoço dentro da água.

Gabinete de Imprensa do CNH: Estamos muito longe disso…
José Miguel Barros: Naturalmente que aqui não será assim. Estamos a estudar a possibilidade de haver treinos extra de semana e treinos regulares aos sábados e domingos.

Estive a conversar com o Duarte e entendemos que é preciso começar do zero, ou seja, haver a criação de bases para depois termos mais miúdos que queiram continuar na Vela, vendo-a como um desporto em que queiram evoluir. Existem sempre algumas bases que eles precisam de aperfeiçoar, mesmo os maiores. Não quer dizer que estejam errados, mas faltam alguns aspectos de base para que num futuro próximo se possam criar umas boas equipas de Vela no Clube, com mais quantidade e com melhor qualidade. Acredito que mais tarde será possível organizar umas regatas ou idas lá fora. Eu e o Duarte queremos ter, dentro de 1 a 3 anos, velejadores que consigam fazer alguma coisa a nível nacional.

Gabinete de Imprensa do CNH: Competir em casa, uns com os outros, não é a mesma coisa…
José Miguel Barros: Quando competimos uns com os outros, em casa, sabemos sempre o nível do outro. O interessante de uma regata é chegar com pessoas novas e não se saber o nível de nenhum para se ver exactamente o nível em que se está. É assim que se consegue qualificar o nível de cada pessoa.

Gabinete de Imprensa do CNH: O que de mais importante está a faltar?
José Miguel Barros: Motivação própria, embora uns tenham mais do que outros.

Gabinete de Imprensa do CNH: E como é que se consegue motivá-los?
José Miguel Barros: Quando melhorarem e obtiverem bons resultados nas provas regionais, vão ver que os treinos valeram a pena. Já lhes disse que vamos ter muito tempo pela frente e as coisas requerem tempo. Não podem querer aprender tudo de uma vez só. Se conseguirem aprender devagarinho e bem é muito melhor do que quererem fazer tudo de uma vez só, sem terem bases de coisas simples. E chega-se a esse nível vindo às aulas. E como eles vêm, vão conseguir.

Gabinete de Imprensa do CNH: A concentração é outro factor extremamente importante.
José Miguel Barros: É claro que estamos a falar de atletas com idades muito diferentes. O grau de concentração de miúdos em Optimist é totalmente diferente dos de Laser ou 420. Eu também passei por isso e o que me ajudou bastante, para além do grupo grande de amigos que eu tinha – a maior parte dos amigos que tenho são da Vela – era esta motivação, pois não só ia fazer uma coisa de que gostava muito (era o que mais gostava de fazer) como estava com os meus amigos. Criando esta relação de desporto e amizade com um grupo bom e que se dê bem, nasce aquela vontade de querer aprender e evoluir naturalmente, e isso é muito importante não só para a Vela como para a vida. Se me disserem que vai ser muito difícil porque não se fazem provas lá fora, eu digo que ainda há muito a fazer cá dentro.

Gabinete de Imprensa do CNH: As provas nacionais significam outro patamar para estes atletas.
José Miguel Barros: Eu vejo que aqui nos Açores se olha para as provas nacionais como se fosse um mundial. Esta mentalidade tem de se mudar. No entanto, esta mudança só se atinge com os treinos. Para conseguirmos fazer alguma coisa a nível nacional, temos de treinar mais.

Apesar do que se possa dizer, vejo desportistas açorianos que atingem muito bons resultados lá fora (nível nacional).

Gabinete de Imprensa do CNH: Há talentos neste grupo.
José Miguel Barros: Todos os atletas valem a pena desde que queiram. Naturalmente, que uns que vão atingir níveis totalmente diferentes (superiores), como acontece em todas as modalidades. Mas o interesse da Vela é mesmo esse: todos eles pensam nesta modalidade de maneira diferente e numa regata vê-se que uns são mais nervosos e outros mais calmos. Já lhes expliquei que numa regata não é preciso fazer tudo a 100 por cento e que a pessoa que ganha é a que erra menos. Eu já noto alguma diferença no sentido de eles quererem aprender e vejo que estão a evoluir.

Gabinete de Imprensa do CNH: A mudança constante de treinador não é positiva.
José Miguel Barros: Uma mudança constante nunca é positiva. Acho que um Clube evolui tendo alguns princípios básicos para se criar uma boa equipa. Desde já, logo na formação, tendo alguns miúdos que queiram estar na Vela não por imposição dos pais, mas por vontade própria. Com isto, criando as bases no Clube e havendo maior quantidade de miúdos nas bases (nas Escolinhas), é possível traçar uma linha de continuidade. Se tivermos muitos velejadores, alguns vão continuar. Mas com menos, chega-se ao fim com muito poucos ou nenhum. E essa formação vem logo de início. O conceito que temos – eu e o Duarte – é de se criar para o futuro mais quantidade com qualidade. Uma grande troca de treinadores não é positivo, mas se desde o início os miúdos tiverem bases sólidas, conseguem atingir patamares diferentes, mesmo mudando de treinador.


“Sou apologista de só haver investimento numa modalidade caso se note evolução, competição e responsabilidade por parte dos alunos. E se assim for, os resultados aparecem com naturalidade”

Gabinete de Imprensa do CNH: O empenho e a aposta do Clube também ajudam muito.
José Miguel Barros: O Clube faz um esforço enorme para arranjar material e reparar o que existe, logo tem de haver uma resposta dos velejadores, e quando falo em resposta significa cuidar do material, vir aos treinos o que leva a ter resultados, para poder haver um investimento maior da parte do Clube.

Sou apologista de só haver investimento numa modalidade, caso se note evolução, competição e responsabilidade por parte dos alunos. E se assim for, os resultados aparecem com naturalidade.

Há muita vontade do Clube Naval da Horta em querer dar um passo à frente com pessoas de fora. E isto não quer dizer que sejam melhores do que as de cá, apenas têm vivências diferentes. Todos têm a ganhar com o esforço de ambas as partes, desde que haja uma Direcção que tenha objectivos neste sentido. E o actual elenco directivo tem consciência disso, até porque contratou o Duarte e agora também estou a dar o meu contributo.

Aproveito para agradecer ao CNH por me ter dado esta oportunidade e espero retribui-la da mesma forma que me ajudou, sendo certo que estou a fazer algo de que gosto muito e que a minha melhor recompensa são os resultados.

Fotografias de: Cristina Silveira