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Entrevista a Jorge Macedo, Presidente da Associação Regional de Vela dos Açores: “Tem de haver um carinho especial para com aqueles miúdos que fazem Vela”

Jorge Macedo preside aos destinos da ARVA desde março deste ano

Jorge Macedo foi, durante 12 anos, Vice-Presidente do Clube Naval da Horta (CNH), tendo, simultaneamente, sido Diretor da Secção de Vela de Cruzeiro deste Clube e Diretor de Prova da Atlantis Cup - Regata da Autonomia. Passados estes anos, entendeu que era altura de fazer uma pausa sem, contudo, se alienar do dirigismo, onde se encontra há 30 anos.

Neste cenário, e com o intuito de ter alguém que conhecesse a realidade e pudesse dar sequência ao trabalho que vinha sendo feito, José Decq Mota, Presidente da Direção do CNH, propôs que Jorge Macedo passasse a liderar a Associação Regional de Vela dos Açores (ARVA), o que foi aceite pelos restantes clubes da Região. E é na qualidade de Presidente da ARVA – uma realidade desde março deste ano – que Jorge Macedo acedeu ser entrevistado pelo Gabinete de Imprensa do CNH, revelando o rumo que pretende implementar ao longo deste mandato, que termina em 2021.

- Gabinete de Imprensa do CNH: Embora tenha experiência de liderança, a verdade é que o Clube Naval e a ARVA são entidades distintas.
Jorge Macedo: Tudo isto é novo para mim e por isso ainda estou a apalpar terreno. O funcionamento do Clube Naval da Horta não tem muito a ver com a ARVA, são entidades com competências diferentes. Enquanto na ARVA o trabalho é direcionado exclusivamente para o desporto federado de competição, no CNH o foco é desenvolver a formação de atletas do próprio Clube, fomentar atividades que vão ao encontro dos Sócios, promover os Açores no mundo náutico através das regatas internacionais, etc.

- Gabinete de Imprensa do CNH: Quais são as tarefas da ARVA?
Jorge Macedo: O trabalho da ARVA incide, essencialmente, na organização e orientação Regional da Vela Ligeira de Competição, dando aos clubes todo o apoio de enquadramento, no que à modalidade da Vela Ligeira diz respeito. A ARVA também colabora na organização conjunta de Provas Regionais, onde são apurados os velejadores para as Provas Nacionais, dentro de critérios previamente definidos pelos clubes associados, orientando toda a logística de deslocações às Provas, quer na Região quer no Continente.

- Gabinete de Imprensa do CNH: Quais são as linhas orientadoras para este mandato?
Jorge Macedo: Antes de responder à questão colocada, gostava de referir que uma das condições que coloquei para aceitar o cargo, foi o da representatividade de mais clubes nos órgãos de direção da ARVA. Esta Direção tem uma maioria de elementos da ilha do Faial, o que se compreende atendendo à nossa descontinuidade geográfica, é igualmente importante ter, também, pessoas de outras ilhas, o que já acontece neste mandato, com um elemento da ilha Terceira e um de São Miguel. A ideia agradou aos clubes presentes na Assembleia-Geral realizada em março passado. Com as tecnologias de comunicação existentes atualmente, é muito fácil todos participarem nas reuniões feitas em qualquer ilha. Aliás, já houve reuniões com participações via Skype.

A atual Direção pretende que os clubes que se encontram inativos retomem a sua atividade de forma regular. É nossa intenção implementar nos Clubes uma maior atividade em termos de Regatas Locais, incentivando a que nas ilhas com mais de um Clube, estes se agrupem na atividade local fomentando mais acções de intercâmbio, para que se obtenha maior competitividade e à vontade por parte dos atletas na competição. Faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para realizar um Estágio Regional com um treinador da Federação Portuguesa de Vela, situação já colocada à Federação e aceite com muito agrado.

Outro dos objetivos em marcha – e existe uma rubrica para isso por parte da Direção Regional do Desporto (DRD) – é a contratação de um Diretor Técnico, licenciado em Educação Física tendo, obrigatoriamente, formação na vertente de Vela. Esta questão foi abordada com a DRD na Cimeira da Vela, que decorreu em Angra, no passado mês de maio. E, a propósito, foi dito que há uma comparticipação para o ressurgimento deste quadro da ARVA, que já existiu em tempos. Estamos a falar de mais um funcionário para a ARVA, que neste momento dispõe apenas de uma administrativa. O Diretor Técnico daria um apoio fundamental nas questões de desenvolvimento desportivo e apoio técnico aos nossos clubes associados, tendo em conta que todos os dirigentes têm a sua vida profissional e que já dão, graciosamente, muito do seu tempo a esta instituição.

Sei que não é fácil encontrar alguém que preencha todos estes requisitos. Tem de ser um técnico superior formado em Educação Física, que tenha predisposição para ir fazer formação na área da Vela. O ideal seria alguém que já tivesse feito Vela, para ter essa escola. A nossa ideia é podermos contar com o Diretor Técnico já em 2018. A época desportiva acaba a 31 de julho e a 1 de agosto começa outra. Há interregno na prática, mas no papel isso não acontece.

O Campeonato Regional de Escolas de Vela terá lugar de 22 a 23 de julho na Madalena do Pico. É a última Prova Regional que dá acesso ao Nacional de Escolinhas, a realizar na primeira semana de setembro, este ano no Funchal.

É nossa intenção – caso tenhamos reforço financeiro no apoio para tal – retomar o figurino inicial de Campeonatos Regionais e que contemplava quatro em vez das atuais três Provas do Campeonato Regional (PCR), com o intuito de proporcionar mais competitividade em grupos maiores, mas é algo que este ano ainda não conseguiremos pôr em marcha por falta desse apoio.

- Gabinete de Imprensa do CNH: Já deu tempo para conhecer os cantos à casa?
Jorge Macedo: Mal tomámos posse, tivemos logo de tratar da logística dos Jogos das Ilhas, que decorreram na Martinica e em que o Vice-Presidente, António Pedro Oliveira, foi acompanhar a comitiva da Vela. Depois, tivemos de tratar da logística relacionada com o Campeonato Nacional de Juniores e Absolutos, que se realizou em Viana do Castelo, em que integrei essa comitiva, até para perceber as questões de funcionamento com a nossa frota estacionada no Continente. A seguir, foi o Campeonato de Portugal de Juvenis com os Optimist, em Sesimbra, em que tivemos de andar com barcos em atrelados da própria Associação, de Ovar para Sesimbra, e ainda para nos complicar mais a vida, o atrelado do semi-rígido foi furtado.

 - Gabinete de Imprensa do CNH: Mas a ARVA dispõe, no Continente, de um armazém com material...
Jorge Macedo: Sim, tem um armazém alugado com equipamento em Ovar, na zona de Aveiro, mas fica muito fora de mão. Temos lá 8 Optimist, 3 Laser, 2 420, 2 semi-rígidos, 1 carrinha de 9 lugares e os respetivos atrelados para todo este material, mas estamos a tentar arranjar um armazém numa zona mais centralizada. Aliás, encontrar um armazém na zona de Lisboa e trazer toda a frota que se encontra em Ovar, é algo que queremos fazer no imediato. Outra das prioridades, é substituir a carrinha, que acusa algum desgaste e, sendo um meio destinado ao transporte de jovens, as responsabilidades são acrescidas.

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“Todos estes cargos são voluntários, exigem muito trabalho e nenhum de nós recebe qualquer compensação”

- Gabinete de Imprensa do CNH: A ARVA conta com apoio da Direção Regional do Desporto (DRD)?
Jorge Macedo: Temos um contrato-programa anual, destinado ao desenvolvimento da atividade da Vela, à semelhança do que existe para outras modalidades.

- Gabinete de Imprensa do CNH: O Presidente da ARVA e todo o elenco diretivo são dirigentes voluntários?
Jorge Macedo: Claro! E o poder político, por vezes, não percebe que estes dirigentes também têm a sua vida privada. É um cargo voluntário que exige muito trabalho e nenhum de nós recebe qualquer compensação.
Em termos de dirigismo, isso está regulamentado, mas o chefe do serviço não é obrigado a dispensar o funcionário sempre que necessário. Por isso é que existe um pedido de anuência prévia para esse efeito. Tem havido compreensão por parte das chefias, caso contrário teríamos ainda mais problemas.

- Gabinete de Imprensa do CNH: O que o levou a abraçar este projeto?
Jorge Macedo: Comecei a dedicar-me ao mundo náutico em 1989, numa altura em que já era adulto e casado. Tudo isto começou “por culpa” do Sr. Aurélio Melo, que na altura era Presidente do CNH, juntamente com Carlos Lacerda, meu vizinho de porta. Como uma parte da Direção os abandonou, o Carlos Lacerda desafiou-me a dar-lhes uma ajuda. Aceitei o convite e comecei a colaborar com o CNH.

Até aí, sempre estive ligado ao futebol, quer como jogador quer como dirigente. Posso mesmo dizer que fui dos dirigentes mais novos. Com 17 anos, fui dirigente do Angústias Atlético Clube. Diziam que se lembravam de eu ter sido o elemento mais novo a assumir o dirigismo federado na ilha do Faial.

A primeira edição da Atlantis Cup aconteceu em 1988 e em 1989 já fiz parte da equipa da Comissão de Regata. E sempre estive ligado à Organização, apesar de nunca ter feito Vela na minha vida, nem tão pouco saber andar à Vela. Tudo isto tem um bocado a ver com a afinidade organizativa. Gosto do mar, de ver Vela e de apreciar os miúdos a navegar.

A Vela é dos teimosos e não da elite como por vezes se ouve dizer. Enquanto tu vais para o futebol e o clube te dá umas chuteiras e uma bola e podes apanhar uma molha de vez em quando, ou vais para o vólei e para o basquetebol e tens o material à abrigada, na Vela isso não acontece. Pode estar mau tempo ou bom tempo que tu andas sempre molhado. E ainda tens de aparelhar, transportar e desmontar todo o aparelho dos barcos, o que não tem nada a ver com outras modalidades. A Vela tem outras especificidades e há que reconhecer isso.

- Gabinete de Imprensa do CNH: E esse esforço não é reconhecido?
Jorge Macedo: Penso que sim, mas ainda não o suficiente. Os responsáveis pelo Desporto Regional e até alguns Municípios começam a tomar contacto com esta realidade. Contudo, ainda não veem a Vela como um desporto que tem de ser mais acarinhado. Não quero que a Vela seja mais considerada do que as outras atividades, mas tem de haver um carinho especial para com aqueles miúdos que fazem Vela. É imperioso que existam outros incentivos no sentido de que evoluam nesta modalidade. Não estamos a falar só de dinheiro, mas do reequipamento da frota e no apoio à formação de técnicos, em que se notam muitas dificuldades. Naturalmente que só conheço a realidade do Clube Naval da Horta. Nas Direções que integrei, fizemos sempre quase o impossível para termos equipamento de frota em condições navegáveis, assim como as embarcações de apoio, tendo sempre gente para que os velejadores se sentissem bem, mas tudo isto sai muito caro. Há clubes com menos disponibilidade para atender a estas vertentes fundamentais e são esses que, no meu entender, têm de ser mais apoiados.

- Gabinete de Imprensa do CNH: Esse apoio acontece por parte de algumas autarquias?
Jorge Macedo: Não vou falar das nossas autarquias, porque ainda não houve tempo útil para me inteirar da realidade na Região, mas posso testemunhar que fiquei muito sensibilizado com o que constatei na minha primeira deslocação, como Presidente da ARVA, ao Campeonato de Portugal de Juniores e Absolutos, que decorreu este ano em Viana do Castelo. Aquele Clube dispõe de umas instalações invejáveis para qualquer clube de vela tendo, englobado nestas, um Centro de Estágio; armazém em que se colocam os mastros de todas as classes ao alto, porque tem pé direito para isso; vários gabinetes técnicos; sala de aulas; sala de Direção; parqueamento exterior (enorme) para embarcações, isto para falar só das instalações, e tudo cedido pela Câmara Municipal.  Posso afirmar que são das melhores instalações do país!

Tive o prazer de falar com o senhor Vereador do pelouro da Cultura e Desporto – conversa que depois foi confirmada pelo Presidente do Clube Naval de Viana do Castelo – e, de facto, o investimento daquele Município na modalidade Vela é algo excecional. Eles trabalham sempre no sentido de captar cada vez mais eventos de vela para o concelho, porque sentem o retorno. Todos sabemos que, além dos atletas, depois vão muitas famílias a acompanhá-los, o que dinamiza alguns sectores económicos da cidade. Há uma clara aposta na Vela.

Lamentavelmente, por cá, estas coisas ainda não foram encaradas de forma séria. Fala-se muito no Turismo Náutico, mas a prática não o demonstra. É tempo de pensarmos nesta mais-valia para a nossa Região. Não é só a prática da competição nua e crua que tem de prevalecer. Devemos começar pelos miúdos e pela Escola. Uma das nossas preocupações na ARVA é incentivar essa prática. É intenção deste elenco diretivo fazer uma ronda pelos municípios onde haja clubes para, de alguma forma, tentar despertá-los para as atividades da Vela. Todas estas ilhas são rodeadas por mar. Trata-se de um desporto que, se tiver boas acessibilidades, é fácil de praticar. Obviamente que os equipamentos são caros e é nesse âmbito que poderá haver algum incentivo por parte dos municípios para aquisição de equipamento ou apoio.

Uma das maiores dificuldades dos clubes são os treinadores. Ter carta de treinador hoje em dia é muito difícil e dispendioso e os clubes não conseguem desenvolver a sua atividade corrente sem estes técnicos. Naturalmente que os clubes nas ilhas mais pequenas ficam muito condicionados por esta dificuldade.

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“Aceitei este cargo pela afinidade organizativa que tenho desde muito jovem”

- Gabinete de Imprensa do CNH: Quando falamos na Vela, também está incluída a Classe Hansa (Vela Adaptada para pessoas com mobilidade reduzida)?
Jorge Macedo: Naturalmente que sim. O Clube Naval da Horta foi pioneiro na inclusão da Vela para todos com a implementação da Classe Hansa (que antes se designava por Classe Access) e a ARVA vai apostar fortemente na expansão desta Classe a outros clubes dos Açores. E nesse sentido, dispõe de 2 embarcações 2.3 com atrelado, precisamente com o objetivo de fomentar essa prática.

É fundamental que haja competição a nível regional. Neste momento, os velejadores do CNH só competem em termos nacionais por falta de adversários nos Açores. E, a propósito, aproveito esta oportunidade para realçar os excelentes resultados que têm sido alcançados, nomeadamente o facto de Rui Dowling se ter sagrado Campeão Nacional da Classe Access, em 2016, e de este ano ter ficado novamente no pódio, com um honroso 3º lugar, o que muito dignifica o CNH e o Faial.

- Gabinete de Imprensa do CNH: A Vela é bastante promovida pelo Clube Naval da Horta. Outro bom exemplo é o Rui Silveira, o maior embaixador do Faial fora de portas, a trabalhar afincadamente para os Jogos Olímpicos de 2020, em Tóquio.
Jorge Macedo: Sem dúvida que o CNH é o grande estandarte dos Açores no que diz respeito à modalidade da Vela e não só. O Rui Silveira é um atleta de Alta Competição, que está integrado na equipa olímpica da Federação Portuguesa de Vela visando os Jogos do Japão. É um atleta formado na Escola de Vela do Clube Naval da Horta e um orgulho para o Faial e para os Açores. Tem tido uma grande evolução, revelando uma contínua e esforçada linha de trabalho. É apoiado pelo Clube e pela ARVA e os seus resultados têm sido galardoados e reconhecidos cá dentro e lá fora. É um exemplo de sucesso que merece ser seguido e apoiado com grande atenção, pois estamos a falar de um jovem ambicioso e capaz, que se dedica de corpo e alma à Vela, a sua grande paixão. São atletas como este que atestam bem aquilo que a Vela pode representar em termos de desporto, de resultados, de carreira e de dedicação. Para chegar a este patamar, foi preciso trabalhar muito e, para continuar lá, ainda é preciso velejar mais. É um desafio permanente chegar ao pódio e conseguir manter-se lá.

Corpos Sociais da ARVA para o mandato de 2017/2021:

Mesa da Assembleia Geral:
Presidente: Clube Naval de Ponta Delgada
Vice-Presidente: Clube Naval da Madalena
Primeiro Secretário: Clube Naval de São Roque do Pico
Segundo Secretário: Clube Naval das Lajes das Flores

Direção:
Presidente: Jorge Manuel Rodrigues de Oliveira Macedo
Vice-Presidente: Hugo Ferreira Pacheco
Vice-Presidente: António Pedro Oliveira
Secretário: Carlos Manuel Parece Araújo
Tesoureira: Ana Isabel Pereira Pimentel
Suplente: Luís Carlos Machado Lourenço Decq Motta
Suplente: Miguel Pamplona da Ponte Ávila Simões

Conselho Fiscal
Presidente – Clube Naval da Praia da Vitória
Secretário – Clube Naval de Santa Maria
Relator – Associação Cultural, Desportiva e Recreativa da Graciosa

Conselho Regional de Juízes e Oficiais de Regata (CRJOR):
Presidente: Francisco José Furtado de Medeiros Gonçalves
Secretário: Eduardo Manuel Coucelos Sarmento
Vogal: Paulo Renato Maciel Costa de Oliveira Ramos