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David Abecasis: “Eu e o Miguel ambicionamos chegar ao Europeu e Mundial e vamos trabalhar para isso”

David Abecasis e Miguel Guimarães, velejadores do CNH: uma dupla muito empenhada, que sonha com o Campeonato da Europa e do Mundo
Fotografia de: José Camelo
David Abecasis, velejador do Clube Naval da Horta (CNH) da Classe Snipe, faz dupla com Miguel Guimarães e a actividade desportiva destes atletas tem vindo a ser acompanhada pelo Gabinete de Imprensa da casa. Por isso, a passagem de David Abecasis pelo Faial foi uma excelente oportunidade para fazermos o ponto da situação ao desempenho desportivo destes velejadores, paralelamente à conversa mantida com o Presidente da Direcção do CNH, José Decq Mota.

David Abecasis, velejador do CNH, tem uma relação com o Faial que faz questão de manter
Fotografia de: Cristina Silveira
- Gabinete de Imprensa do Clube Naval da Horta: A passagem pelo Faial é sempre muito preenchida?
David Abecasis: Muitíssimo! Tenho uma ligação ao Departamento de Oceanografia e Pescas (DOP) desde o tempo em que trabalhei cá, entre 2003 e 2005, e tenho tentado mantê-la. Foi nessa altura que dei aulas de Vela no Clube Naval da Horta e, durante um Verão, também trabalhei para o Norberto Diver, como guia de mergulho e skipper. Tento vir ao Faial todos os anos, em trabalho ou em férias. Sou biólogo marinho e neste momento estou a acabar o primeiro ano do Pós-Douramento nesta área, com foco nas Áreas Marinhas Protegidas. No entanto, como ainda me faltam mais 2 anos, certamente que vai ser necessário vir cá mais vezes, o que é sempre bom.

Torneio de Carnaval, em Vilamoura: “Tivemos indicadores muito bons sobre o nosso novo barco”, salienta David Abecasis
Fotografia de: José Camelo
- Gabinete de Imprensa do Clube Naval da Horta: Como decorreu a última regata, que constituiu a estreia do vosso barco novo?
David Abecasis: A nossa última prova foi o Torneio de Carnaval, que decorreu de 14 a 16 de Fevereiro passado, em Vilamoura. Tratou-se de um Campeonato de 3 dias. Fizemos uma regata no sábado, três no domingo e três na segunda-feira. Esta prova foi a estreia do barco novo em competição e posso dizer que gostámos bastante. Tivemos indicadores muito bons sobre a nossa nova máquina. Uma das nossas dificuldades em anos anteriores tinha sido andar à popa e ao largo contra os nossos adversários. Tínhamos dificuldade em manter os lugares; normalmente acabávamos por perder um bocadinho, porque o barco antigo tinha menos velocidade do que os dos outros velejadores. Mas agora estamos em pé de igualdade. Até sentimos que, nalgumas situações, o barco estava um pouco mais rápido do que os dos outros e isso deu-nos alento. Foi muito bom ver que o nosso novo barco está adaptado ao que são as nossas exigências e necessidades.
- Gabinete de Imprensa do Clube Naval da Horta: Não são necessárias pequenas afinações?
David Abecasis: Sim, claro que sim. Há pequenas coisas que vamos ter de alterar ainda, mas são pormenorzinhos. O barco está aprovado para fazer regatas. Ficámos em 2º lugar neste Torneio do Carnaval.
A nossa dúvida era perceber se o barco iria ser mais rápido aos largos e às popas, o que se confirmou. Certamente que temos barco para os próximos anos.
- Gabinete de Imprensa do Clube Naval da Horta: O que se segue no vosso calendário de provas, sempre muito preenchido?
David Abecasis: Deveríamos ter ido a Espanha participar no Trofeo Cholo Armada, que decorreu nos dias 14 e 15 deste mês, mas como eu estava no Faial e o Miguel recebeu uma nova proposta de trabalho, não nos foi possível ir. Esta competição tem um sabor especial para nós, porque fomos vencedores em 2014 e uma das características desta prova é que, quem ganhar três vezes consecutivas ou cinco alternadas, ganha o Troféu. E como já tínhamos ganho no ano passado, estávamos a pensar aproveitar a embalagem com o objectivo de alcançar uma segunda vitória consecutiva.
A regata que se segue será nos dias 18 e 19 de Abril, em Cascais. Trata-se da primeira prova de apuramento nacional, que conta para o Ranking Nacional e que vai definir as equipas de velejadores que irão ao Mundial. Um dos nossos objectivos é ficar nos três primeiros do Ranking Nacional, já que nos últimos dois anos ganhámos este Ranking. Vamos ver se este ano repetimos ou se ficamos nos primeiros três lugares para termos acesso ao Mundial, uma das nossas grandes ambições.
- Gabinete de Imprensa do Clube Naval da Horta: Em termos nacionais, o que falta no vosso palmarés?
David Abecasis: Ainda nunca ganhámos o Campeonato Nacional de Snipe. É apenas uma prova com essa designação e está sempre presente nos nossos objectivos. No primeiro ano que começámos a fazer Snipe, ficámos em 2º lugar, e até
à última regata tivemos sempre hipótese de ganhar o Campeonato, mas não conseguimos. No ano passado, no Porto, as coisas não correram bem: deparámo-nos com condições adversas ao nosso barco (que estava muito desgastado e desactualizado), nomeadamente muita ondulação. Actualmente, já não temos esse problema, pois o nosso novo barco é igual ao de toda a gente de topo. Como tal, vamos ver se é este ano que conseguimos um título nacional nesta Classe.
O Diogo Pereira e o Gonçalo Ribeiro, que foram os campeões nacionais no ano passado, formam uma dupla com quem treinamos muito. Como trabalham perto de nós, conseguimos conciliar os treinos e nos campeonatos quase sempre estamos juntos. Existe uma certa rivalidade entre nós, mas ao mesmo tempo somos amigos há perto de 30 anos. Conseguimos separar as coisas: dentro da água somos adversários e cá fora amigos. No ano passado, quando eles ganharam o Campeonato Nacional, foi óptimo para nós, sentimos uma grande alegria. Não fomos nós a ganhar, mas o facto de terem sido eles foi quase tão bom como se a vitória tivesse sido nossa.

David Abecasis: “A sensação que tenho é que nos damos bem com toda a gente e há uma camaradagem engraçada na Classe”
Fotografia de: José Camelo
- Gabinete de Imprensa do Clube Naval da Horta: Isso revela mesmo amizade!
David Abecasis: Somos bons amigos. A sensação que tenho é que nos damos bem com toda a gente e há uma camaradagem engraçada. Existe muita competição em prova, mas depois somos todos amigos. Ainda agora no Carnaval cerca de 40 velejadores juntaram-se e foram jantar fora. Só isto mostra um pouco o espírito que existe nesta Classe.
- Gabinete de Imprensa do Clube Naval da Horta: O barco novo tem suscitado curiosidade? Esta dupla é agora mais temida?
David Abecasis: A ideia que tenho em relação ao resto da frota em Portugal é que nós somos sempre apontados como um dos candidatos em qualquer campeonato nacional, assim como em alguns fora do país. O que eu e o Miguel sentimos agora foi muita curiosidade, por parte dos velejadores da Classe, em ver o nosso barco e, principalmente, em observar os sistemas que montámos, porque a maior parte dos sistemas foram pensados, desenhados e montados por nós. Tem havido muita curiosidade em ver o nosso barco e a forma como montámos todos os sistemas.
- Gabinete de Imprensa do Clube Naval da Horta: E isso é bom?
David Abecasis: É, porque demonstra que as pessoas acreditam no nosso trabalho e têm interesse por aquilo que fazemos. Se copiarem o que fizemos, é sinal de que gostaram daquilo que nós montámos e é motivo de satisfação para nós.
O barco está exactamente como nós queríamos, com tudo à nossa maneira. Há pequenas coisinhas que ainda precisam de ser afinadas, mas isso é normal, vai sendo feito com o tempo. Estamos muito, muito, satisfeitos com o barco!
- Gabinete de Imprensa do Clube Naval da Horta: Depois da vossa experiência, acumulada ao longo de cerca de 30 anos, dos vários títulos alcançados, do barco novo, um investimento que saiu do vosso bolso, só está mesmo a faltar ganhar o Europeu e o Mundial…
David Abecasis: É um sonho ganhar esses Campeonatos! Sabendo à partida que será muito ambicioso da nossa parte pensar que vamos conseguir ser campeões do mundo, a nossa expectativa passa por ficar nos 15/20 primeiros no Campeonato do Mundo mas, mesmo assim, é preciso trabalhar muito. Acreditamos que, se fizermos um bom plano de treinos até lá e as coisas nos correrem bem, com muito esforço temos condições para ficar nos 15/20 primeiros.
- Gabinete de Imprensa do Clube Naval da Horta: Há muita gente a trabalhar para o mesmo, com muitas condições…
David Abecasis: Sim, além de haver muitos velejadores experientes, estamos a falar de uma Classe que permite a competição durante muitos anos. No Brasil, por exemplo, temos adversários com 50, 60, 70 anos, que já foram Campeões do Mundo (várias vezes) e Campeões da Europa, e hoje em dia, em determinadas condições, ainda conseguem andar na frente e dar luta a pessoas que começaram há pouco tempo.
- Gabinete de Imprensa do Clube Naval da Horta: Isso significa que esta dupla tem uma longa carreira à sua frente, certo?
David Abecasis: Sim, sim. Temos um bom exemplo em Portugal, que é o Tiago Roquette, que ganhou o Nacional em 2013 – já ganhou 15 campeonatos nacionais – e anda nesta Classe há cerca de 30 anos. É sinal de que nós podemos andar ainda mais 15 ou 20 anos em Snipe e algum dia hão-de chegar os bons resultados.
- Gabinete de Imprensa do Clube Naval da Horta: A vitória é sempre imprevisível, mesmo quando se pensa que temos tudo controlado?
David Abecasis: Sim, e não há dois campeonatos iguais. Há campeonatos que nós ganhámos ou temos ganho, de vez em quando, com mais facilidade do que aquilo que estávamos à espera. Um bom exemplo disso foi o Trofeo Memorial Cholo Armada, no ano passado, em que a primeira regata não nos correu nada bem: as condições atmosféricas eram muito complicadas, caiu uma chuvada tremenda, o vento subiu para os 30/35 nós subitamente e deixámos de ver as bóias. Não estávamos assim tão bem classificados e, de repente, conseguimos fazer uma boa regata e acabámos por ganhar. O dia seguinte foi muito parecido e, no fim do Campeonato, em 5 regatas ganhámos 4 e tivemos um 2º lugar. Temos campeonatos em que andamos ali passo a passo e que nos dão um gozo enorme por lutar até ao fim.

Nem sempre é fácil conciliar o trabalho com a modalidade, mas a paixão pela Vela supera tudo!
Fotografia de: José Camelo
- Gabinete de Imprensa do Clube Naval da Horta: Este ano há mais competições do que no ano passado?
David Abecasis: Em termos de competições devem ser mais ou menos as mesmas do ano passado. Ainda não temos a confirmação de todas as regatas em Espanha. Talvez haja mais uma do que em 2014, mas em termos de campeonatos, o número vai ser parecido com o figurino anterior. Se formos apurados e tivermos a oportunidade de irmos ao Campeonato do Mundo, em Itália, de 19 a 26 de Setembro, poderá ser uma boa oportunidade para nos dedicarmos mais e fazermos uma boa época para chegarmos lá bem preparados.
Quando fomos ao Campeonato do Mundo, no Brasil, há 2 anos, tínhamos a noção de que ia ser muito complicado, porque não tínhamos o nosso barco, íamos competir em condições completamente diferentes daquelas a que estávamos habituados, com calor, correntes diferentes, etc. As correntes dentro da baía do Rio de Janeiro são complicadíssimas! Nunca tinha visto nada assim. Havia lá estrangeiros, entre os quais alguns eram campeões do mundo, a tentar fazer esquemas daquilo, mas não é nada fácil. Não tínhamos tempo para nos prepararmos, porque isso implicava ir para lá 15 dias ou 3 semanas antes da competição para nos adaptarmos ao local, o que era sinónimo de gastar muito dinheiro, nem tínhamos o nosso barco. Tivemos sorte, porque o Miguel tem lá contactos e conseguimos arranjar um barco emprestado para treinar, mas não foi o mesmo com que fizemos a prova e esse só conseguimos experimentá-lo no próprio dia do Campeonato. Naturalmente que estas condições dificultaram muito o nosso desempenho. Com o nosso barco, a que já estamos habituados, o ritmo é diferente e sabemos melhor com o que podemos contar. Mas mesmo assim, é sempre uma incógnita, porque há aspectos que não controlamos. No entanto, essa é uma das características da Vela e é por isso que gostamos tanto desta modalidade.
- Gabinete de Imprensa do Clube Naval da Horta: A vossa paixão pela Vela supera tudo?
David Abecasis: Sim! Conciliar os treinos e as provas com a nossa vida profissional é complicado. Por vezes não conseguimos arranjar tempo para treinar e temos de fazê-lo na hora de almoço e sempre a correr. Daqui para a frente teremos de treinar aos fins-de-semana e aproveitar os fins de tarde, quando os dias começarem a ficar maiores. É com muito gosto que fazemos isto. E é preciso ver que em Lisboa não temos as condições de que os velejadores dispõem no Faial. Lá, temos de ver a maré e perceber se a água não está muito baixa, pois se assim for, não conseguimos fazer descer o barco na rampa, que não funciona com todas as marés. E depois, no fim dos treinos, temos de voltar a ver se a maré está cheia para conseguirmos subir o barco na rampa, porque não pode ficar na água. Também temos de conciliar toda esta logística. É que até podemos ter tempo, mas se estas condições não estiverem reunidas, não conseguimos treinar. Mas mesmo assim, não é isto que nos demove de alcançarmos os nossos ideais na Vela.
- Gabinete de Imprensa do Clube Naval da Horta: São convidados para participar em determinadas regatas?
David Abecasis: Sim, por vezes isso acontece. Em Portugal, se um campeonato mais pequeno não reúne o número de barcos que a organização deseja, acontece sermos convidados a participar. É uma forma de atrair outros velejadores. Isso aconteceu em Dezembro último, na Regata promovida pelo Clube Náutico dos Oficiais e Cadetes da Armada (CNOCA), na Base Naval do Alfeite, que, afinal, não chegou a realizar-se devido ao tempo.
Quando chegámos lá, muitas pessoas que estão a começar nesta Classe, foram ver o nosso barco, com muito entusiasmo por se tratar de um barco novo. Manifestavam interesse em ver o que se passava.
- Gabinete de Imprensa do Clube Naval da Horta: O número de praticantes da Classe Snipe está a aumentar?
David Abecasis: Há cada vez mas gente nesta Classe. O Torneio de Carnaval, como não conta para o Ranking Nacional, é uma regata que nem costuma reunir muita gente. Em 2013 inscreveram-se 10-15 barcos, e ganhámos, mas este ano, atingiram cerca de 30. No ano passado não participámos. Notámos agora que havia equipas novas e acredito que as regatas nacionais vão ter mais gente.
- Gabinete de Imprensa do Clube Naval da Horta: A formação não está nos vossos horizontes?
David Abecasis: Não temos tempo para ensinar.
A família começa a crescer o que é sinónimo de mais obrigações e o tempo que nos sobra ou é para passar em família ou para dedicar à Vela. Portanto, não podemos pensar em mais nada!
As pessoas novas que chegam à Classe vêm pedir-nos sugestões para afinações ou técnicas de condução. Há sempre pessoas a virem falar connosco, não só porque temos tido alguns bons resultados (embora haja gente com muito mais experiência do que nós, que até somos relativamente novos), mas também devido à profissão do Miguel, que está num ramo da náutica em que conhece muita gente: comercializa barcos. Ele já conseguiu cativar alguns dos seus clientes, das classes maiores para andar de Snipe, e há muitas pessoas que vão directamente falar com o Miguel, que é uma pessoa conhecedora e que gosta disto. Reconheço que é uma vantagem gostarmos tanto do mar e ambos estarmos ligados a esta área, em termos profissionais e desportivos.