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Entrevista CNH: Depois de seis meses no mar, Júlia Vieira Branco e Bartolomeu Ribeiro regressam a casa

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Quando saíram do Faial, em Outubro de 2015, Júlia e Bartolomeu eram dois jovens, de 14 e 16 anos respetivamente, que partiam rumo à aventura e ao desconhecido.

Em 2015/2016, o Programa School at Sea, que viaja durante seis meses no Regina Maris, recebeu pela primeira vez alunos não holandeses, cabendo essa honra à Júlia e ao Bartolomeu, que ficam assim ligados para sempre à história do programa.

Foi um processo longo, que começou aquando da habitual escala do Regina Maris na Horta, na Páscoa de 2015. A Júlia e o Bartolomeu visitaram o barco e apaixonaram-se por aquele que viria a ser o projeto das suas vidas. Finda a viagem, ficam as memórias, as aprendizagens, as amizades e a enorme vontade de repetir a experiência.

O Gabinete de Imprensa despediu-se de dois adolescentes em Outubro e foi com muito orgulho que recebeu dois jovens adultos em Abril, cheios de histórias para contar.

 

Gabinete de Imprensa: Terminaram os seis meses no mar. Qual é que é a sensação de voltar a casa?

Bartolomeu Ribeiro: Acho que a palavra certa é “estranho”. Não estava habituado a acordar sozinho e sem barulho, porque no barco nos ensinaram sobre os motores e geradores. A primeira noite em que dormi sozinho no meu quarto, acordei de manhã e não havia barulho nenhum, pensei logo “passa-se alguma coisa com o gerador?”. Já ia acordar um amigo meu para ver o que se passava (risos). É estranho, não estar habituado.

E em relação a tudo, não ter os amigos, ter a possibilidade de escolha em relação às refeições. A primeira vez que fiquei sozinho em casa senti-me mal, não sabia o que havia de fazer, não tinha ordens ou nada para fazer.

Júlia Branco: Está a ser mais difícil do que eu estava à espera, porque já estava completamente habituada ao ritmo do barco, a viver com outras pessoas, a ter aquela relação tão próxima com aquele grupo de pessoas e depois voltar a casa.

Tive saudades de várias coisas de casa, da minha família e dos meus amigos, mas depois no final também tenho muitas saudades da minha segunda família do barco, por isso é um bocado de sentimentos misturados. Nós estivemos seis meses, 24 horas por dia, com aquelas pessoas, e de repente de um dia para o outro, deixar de os ver completamente, é difícil. Eles estão na Holanda e podem ver-se frequentemente, mas estando aqui é muito mais difícil de os ver. E depois ver as fotografias do barco, dá uma nostalgia.


Gabinete de Imprensa: Sendo os únicos portugueses no meio de tantos holandeses, sentiram alguma diferença de cultura?

Júlia Branco: Sim, a diferença de culturas é bastante notória, ainda mais porque nós tivemos a oportunidade de conhecer um bocadinho da cultura holandesa a fundo, porque estivemos a viver seis meses com eles. Acho que é diferente, mas acho que é ótimo ter amigos holandeses.

Uma coisa engraçada, quando estávamos em Cuba, no Eigen Reis, o meu grupo conseguia sempre passar os planos, porque eu ia comprar os bilhetes e eles achavam que eu era cubana, por ser muito mais morena que o resto da tripulação. (risos)

Bartolomeu Ribeiro: Eu tinha um rapaz no barco que me chamava sempre “marrokaan”[tradução do holandês, marroquino], a brincar comigo (risos).

 

Gabinete de Imprensa: A nível do humor e das brincadeiras, estando todos na adolescência, conseguiram integrar-se bem no meio?

Bartolomeu Ribeiro: Sim, acaba por ser o mesmo tipo de ambiente, com piadas parecidas.

Júlia Branco: Há muitas coisas que são iguais, porque somos todos da mesma idade.

 

Gabinete de Imprensa: Vocês conheceram uma boa parte do mundo, que nem metade dos jovens da vossa idade conhece. Como foi assimilar tanta cultura e tantos conhecimentos?

Júlia Branco: É absolutamente fantástico. Por acaso lembro-me de escrever isso no meu diário. Num dia estamos a dormir no barco e no outro dia estamos num país diferente. É uma sensação ótima termos contacto com pessoas que têm ideias completamente diferentes das nossas e que nós acabamos por aceitar. Acho que isso vai tudo dar com o objetivo do School At Sea que é auto responsabilizar, para não sermos tão tacanhos, para pensarmos fora da caixa e conseguirmos ver que há outras ideias que são interessantes e com isso interessamo-nos por outras coisas. Dessa forma acabamos por descobrir aquilo que realmente gostamos e que nos interessa mais.

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Gabinete de Imprensa: O que foi para vocês o melhor da viagem?

Bartolomeu Ribeiro: Os sítios que gostei mais foram as Ilhas desertas de San Blas, no Panamá, e Cuba, onde fizemos o Eigen Reis em que, durante sete dias, tivemos que sobreviver com o dinheiro que os professores nos deram.

Mas também tivemos uma experiência na Ilha Providência, um jogo chamado Over the Line (Atravessar a Linha) onde os inquiridos deveriam atravessar a linha riscada no chão se a resposta fosse positiva. Começavam por perguntas mais básicas, como por exemplo, quem tinha os pais divorciados atravessava a linha. Mas depois as perguntas iam crescendo e íamo-nos conhecendo uns aos outros. No fim, a última pergunta referia-se a quem tinha um segredo muito íntimo que nunca partilhou, toda a gente atravessou a linha. Depois fizemos um círculo, em que os professores e a psicóloga se foram embora e deixaram-nos livres para contarem os seus segredos uns aos outros. Foi fantástica a maneira como toda a gente se abriu.
 
Gabinete de Imprensa: E o pior da viagem?

Bartolomeu Ribeiro: Penso que a parte pior foram as limpezas (risos). Antes de Cuba, principalmente. Tivemos de fazer uma limpeza gigantesca quando chegámos a Cuba, porque a polícia cubana entra a bordo para verificar se está tudo limpo. O Capitão e os oficiais do Regina Maris dizem que se não estiver tudo extremamente limpo, eles têm uma política de enviar os estudantes para casa e com isso conseguem fazer dinheiro, arranjando a desculpa de que não está tudo limpo. Então tivemos que limpar muito, muito, muito… (risos).

Fora isso, esta não é uma viagem paraíso. Há muitas alturas más e boas, há turnos maus e turnos bons. Mas há coisas que não dependem só de nós, havia turnos em que estava muito mau tempo e que não propriamente agradável estar atrás do leme.

Além disso, o momento da despedida também foi difícil.

Júlia Branco: Eu acho que houve muitos momentos muito bons. É muito estranho, mas acho que consigo juntar o melhor e o pior momento num só, foi o momento da despedida. Foi o melhor, naquele momento eu vi que tinha aquelas pessoas. Durante toda a viagem cresceu aquela amizade. E depois, no último momento, quando nos estávamos a despedir, estávamos todos tristíssimos, dava para ver que tínhamos mesmo uma relação fortíssima.

Foi ótimo nesse sentido, mas depois foi mesmo o pior momento, quando tive que sair do barco e dizer adeus àquelas pessoas e saber que acabaram aqueles seis meses fantásticos. Acho que nunca tinha sentido isso, a única palavra boa é “despedaçada”, parecia que estavam a tirar-me um bocadinho.

 

Gabinete de Imprensa: As redes sociais ajudaram-vos no vosso dia-a-dia, com as saudades de casa, nos primeiros momentos, a terem alguém com quem falar em português?

Júlia Branco: No meu caso, algo que me ajudou muito foi escrever o meu diário de bordo. Gosto imenso daquele diário e consigo ver na primeira página em que eu digo “Jesus, eu quero ir para casa” e depois na última página do diário em que eu digo que “não quero ir para casa, quero ficar aqui com eles”. Por isso acho que é muito engraçado e durante a viagem em si foi fantástico.

Houve dias em que escrevia dez páginas quando estava triste e quando estava feliz e queria escrever aquilo para não me esquecer. Lembro-me de um dia que tive um turno engraçadíssimo, quando o acabei em vez de ir dormir, pus-me a escrever no diário para não me esquecer de nada. Nesse aspeto, acho que foi fantástico.

Quanto às redes sociais, quando tínhamos o telemóvel era muito bom ver que os nossos amigos se preocupavam. Tínhamos sempre imensas mensagens de amigos e família, a perguntar como é que estávamos, se estávamos a gostar e a dizer que tinham muitas saudades. Foi bom ver que tinha pessoas em casa, tanto como tinha lá como tinha em casa, que se preocupavam.

Bartolomeu Ribeiro: Não escrevia muita coisa em público, a única coisa que fiz com a minha página do Facebook foi partilhar por onde eu andava, que experiências é que estávamos a ter, fotografias e vídeos. Em relação a expressar sentimentos, acho que no início foi um bocadinho difícil e estranho, porque precisava de ser em língua estrangeira, mas depois acabei por me habituar e tinha um grande amigo no barco com quem consegui comunicar muito bem e partilhávamos muito um com o outro.

 

Gabinete de Imprensa: Quando iniciaram a viagem, vocês falavam o português e inglês e um pouco de francês. Quando o Regina Maris parou cá na Horta, na Páscoa, vocês já falavam bem o holandês.

Júlia Branco: Sim, já conseguíamos perceber bem o que eles diziam e comunicar coisas menos complexas do dia-a-dia com eles.

Mas agora estou a tirar um curso de holandês, para não me esquecer da língua. Nós no barco tínhamos uma componente muito oral, tínhamos que perceber o que eles diziam e comunicar com eles. Eu pelo menos acho que é interessante, mas agora estou a estudar um holandês mais teórico para conseguir dar seguimento ao que aprendi.

Já estive a falar com o grupo de raparigas do meu quarto, mas queria eventualmente ir estudar para a Holanda. Sem dúvida que será uma mais-valia saber falar holandês.

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Gabinete de Imprensa: Sentiram medo em algum momento da viagem?

Júlia Branco: Sim, houve uma vez, depois de sairmos daqui, o mar estava muito mau com ondas de 8 metros e eu estava de turno. Estava toda a gente na parte interior do barco, e as portas estavam seladas. Tinha acabado de sair do leme e tinha que me prender a uma pequena linha de segurança, mas esqueci-me. Estavam lá os oficiais de segurança, um deles deu-me um berro a dizer para me agarrar. Depois é que pensei que podia ter corrido mal, mas correu tudo bem.

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Bartolomeu Ribeiro: Por acaso tivemos sorte, nunca apanhámos ondulação de proa. Houve um dia que tive turno à noite e tínhamos visto nas previsões meteorológicas que no dia seguinte o tempo ia piorar muito. No meu turno ainda estava bom mas depois quando eu acordei, vim cá fora e quando olhei para o mar parecia mesmo que era de um filme, a maneira como tinha crescido rapidamente.

Mas há outras coisas no barco que podem ser perigosas, tal como o turno da cozinha. Houve uma vez, deve ter sido umas das vezes em que eu senti mais perigo, em que estava a folgar uma vela e estava a ser completamente inconsciente. Esqueci-me da força que aquilo tinha e depois te tirar várias voltas, aquilo começou a puxar-me a mão, mas prendi-me rapidamente. Mas fiquei mesmo com a sensação que naquele segundo podia ter perdido os dedos ou a mão.

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Gabinete de Imprensa: Além dos perigos, a parte do enjoo chateou muito? Vomitaram?

Júlia Branco: Sim, muito (risos). Vomitei sessenta e duas vezes. Mas não era muito problemático, porque depois de vomitar sentíamo-nos muito melhor. E não podíamos propriamente dizer “agora vou ficar chateada porque estou a vomitar”. Era vomitar e continuar a fazer o que estávamos a fazer.

Bartolomeu Ribeiro: Eu tinha vários medos antes de iniciar a viagem. Este era um deles, se eu enjoasse muito se iria aproveitar a viagem, porque quando se está mal disposto não se aproveita muito. Mas surpreendentemente nunca enjoei.

 

Gabinete de Imprensa: Se pudessem, voltavam a repetir a viagem e deixavam tudo para trás neste momento?

Júlia Branco: Com as mesmas pessoas, penso que sim. Nós tínhamos um ambiente ótimo no barco. Era mesmo fantástico estar lá, divertíamo-nos. Sentia-me completamente à vontade com aquele grupo, o que é muito difícil de atingir. No barco também sentiria à-vontade, mas com aquelas pessoas já o tenho, sinto-me mesmo bem naquele grupo, e então se me disserem agora “queres ir com o grupo do School At Sea outra vez fazer uma volta ao oceano?” eu acho que dizia sem dúvida sim.

Bartolomeu Ribeiro: Sim, também com o mesmo grupo, mas de preferência por sítios diferentes. Se fosse o mesmo percurso, só repetia com o mesmo grupo.

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Gabinete de Imprensa: A nível de escola, que era um componente importante do vosso programa, conciliar a vida de trabalho e o vosso programa escolar, como correu essa parte?

Bartolomeu Ribeiro: Acho que não correu tão bem assim tão bem como o esperado porque havia dias de escola. No início comecei a esforçar-me na escola, mas não me concentrava muito e também não conseguia perceber muitas coisas ou não conseguia com que me ensinassem os professores. Acabei por desmotivar um bocadinho mais em relação a isso. Então preferia ir tocar guitarra com os amigos (risos).

Pensei que estava tudo perdido, mas ainda há umas pequenas hipóteses de conseguir passar este ano, principalmente nas disciplinas que faço exames. Agora estou a esforçar-me bastante para conseguir passar este ano.

Júlia Branco: Acho que correu bastante bem em termos de escola, esforcei-me muito durante os seis meses. Houve até vezes que me esforcei demasiado. Uma vez, mesmo no princípio da viagem, estávamos a estudar no convés e tinha um rapaz ao meu lado a olhar para o mar. O Capitão veio falar connosco e disse-nos “se calhar devias dar-lhe um bocadinho de ti e ele passar um bocadinho dele a ti”. (risos)

Isso foi uma coisa muito positiva, a partir desse momento consegui aproveitar muito bem a viagem e fazer a escola. Acho que agora é muito bom sentir-me recompensada. Estou um bocadinho preocupada com os exames no final de ano, mas é uma questão de estudar, porque tenho que fazer sete exames em duas semanas. Mas penso que não vai haver problemas.

 

Gabinete de Imprensa: Em jeito de conclusão, com esta viagem reaprenderam a viver?

Bartolomeu e Júlia: Sim, damos muito mais valor a coisas que não dávamos antes.

 

O Clube Naval da Horta deseja as maiores felicidades à Júlia e ao Bartolomeu, esperando que bons ventos vos acompanhem sempre!

 

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