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“Um Dia Pela Vida”: Equipa do CNH organizou Palestra sobre o Cancro da Pele
Tiago Mestre, dermatologista: “É necessário haver uma boa referenciação do médico de família para podermos dar prioridade aos casos urgentes
Queratoses Actínicas, Carcinomas Basocelulares, Carcinomas Espinocelulares e Melanomas, são os 4 tipos de cancro cutâneo mais importantes, de acordo com a apresentação feita pelo dermatologista Tiago Mestre, na Sessão de Sensibilização e Prevenção sobre o Cancro da Pele, realizada esta quinta-feira, dia 11, no Bar do Clube Naval da Horta (CNH), no âmbito do Projecto “Um Dia Pela Vida”, da Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC).
Este especialista – a trabalhar no Hospital da Horta há 8 meses – explicou que as Queratoses Actínicas são lesões neoplásticas, “bastante comuns”, mas que “ainda não são cancros de pele”. E realça que “embora não sejam tidas como urgentes, devem ser tratadas preventivamente por forma a não evoluírem para cancro de pele”.
No que se refere aos Carcinomas Basocelulares, são “igualmente bastante comuns”, havendo a possibilidade de a mesma pessoa ter vários ao longo da vida. Apesar de evoluirem de forma lenta, a verdade é que” crescem muito”.
Quando o assunto versa os Carcinomas Espinocelulares, a situação muda de figura, pois são classificados como “bastante agressivos”, devendo, por isso, “ser tratados o mais rapidamente possível”. O doente deve ser operado e seguido ao longo de, pelo menos, 2 anos.
Os Melanomas atacam as pessoas ruivas, loiras e de pele clara. A cirurgia é considerada “facil, caso o problema não tenha evoluído”. Se assim não for, poderemos estar a falar de “uma cirurgia radical”. Nestes casos, “o importante é percebermos se temos um sinal novo a crescer rapidamente e se o mesmo é muito diferente de outros que já temos. Com o tempo, os melanomas ficam mais invasivos e difíceis de tratar, o que poderá levar a uma cirurgia radical”.
Prevenir e tratar de forma adequada e atempada
Por isso, o foco é a prevenção, que passa pelo uso do protetor solar mas, também, pela educação. Paralelamente à prevenção, “é igualmente fundamental o tratamento adequado e atempado”.
No tempo destinado às perguntas da assistência, Tiago Mestre salientou a importância dos meios físicos, como por exemplo, os chapéus com abas e os óculos de sol. A propósito, disse que “muita gente protege a cabeça, mas esquece-se das orelhas e, por isso, certas vezes o problema surge nessa zona”, revelando que já teve de cortar orelhas e lábios. Para evitar situações de extremo, recomenda o uso de chapéu com abas visando a proteção integral, conselhos que devem ser aplicados a quem anda tanto no mar como no campo.
“Naturalmente que a pesca é uma profissão de maior risco”, sublinha este médico, chamando a atenção para o facto de “a exposição crónica constituir, por vezes, uma proteção maior, atendendo à resistência que uma pele mais habituada ao sol tem em comparação com uma mais branca, em que o risco é maior”. Mas em contrapartida, “quem trabalha no mar tem mais hipóteses de apresentar casos de Espinose”.
É imperioso evitar exposições demoradas ao sol, as quais podem provocar queimaduras e escaldões.
Este profissional da Saúde salienta que “em raras situações os sinais podem mudar e evoluir para melanomas”, mas um bom método de perceber isso é tirar fotografias de forma continuada e manter a situação controlada.
Outra questão que foi colocada por um dos presentes está relacionada com o uso dos protetores que, na opinião deste especialista da pele, “não têm de ser de marca”. E prossegue: “Passadas 3 horas sobre a aplicação, a proteção dos cremes 50+ é zero”. Portanto, “é preciso estar sempre a renovar a aplicação”. Por isso, “quem não puder adquirir um protetor mais caro, opte por um de linha branca, mas tenha presente a preocupação de ir sempre repondo”. No mar, o efeito da radiação solar é a dobrar, pois “a pessoa apanha os raios diretos e os que estão refletidos na areia,” e isto tanto acontece a quem está no mar como no areal. Se estivermos a falar de crianças, a perigosidade aumenta significativamente.
A questão genética também foi levantada no fim desta Sessão, tendo Tiago Mestre confirmado que é um fator que pesa no conjunto, lembrando que “numa ilha a consanguinidade é maior do que num território mais vasto”.
Este dermatologista do Hospital da Horta corroborou a velha tese de que se deve evitar a exposição nas horas em que o sol é mais forte, pois isso faz aumentar o risco, e revelou que “a maior parte dos melanomas são novos, não se tratando de sinais antigos”.
Dando um exemplo concreto da leviandade com que alguns encaram as questões cutâneas, Tiago Mestre afirma que “certas pessoas vão à consulta com o intuito de saber se os sinais estão bem e se podem ir para a praia”. E nesse quadro frisa que, “uma consulta não consiste numa olhadela. É preciso realizar um bom diagnóstico, o que não pode ser feito a correr, num corredor e muito menos a olho nu. É preciso perceber se o sinal está a crescer, se é irregular, se tem mais de 5 mm, se muda de cor e caso se confirme que mudou de cor ou cresceu, é fundamental a vigilância”.
700 consultas de Janeiro a Março deste ano, na Horta
Em declarações ao Gabinete de Imprensa do CNH, este especialista afirmou que “há centenas de cancros de pele, dentro dos quais uns são muito graves, como os melanomas, os angiosarcomas que, sendo raros, constituem verdadeiramente motivo para preocupação; e outros que podem ser invasivos, igualmente fonte de preocupação, devendo ser operados passados 2 ou 3 meses como é o caso dos aliomas. No entanto, o que é crucial é “fazer-se o diagnóstico atempadamente para que sejam facilmente operáveis no Hospital da Horta, evitando que os doentes tenham de ser referenciados para outros locais”.
Tiago Mestre explica que “esta alteração de mentalidade passa pela educação dos doentes, que devem ter cuidado consigo próprios, e pelos médicos de família, que têm de estar atentos aos seus pacientes referenciando os mesmos, para que possam chegar ao Hospital em tempo útil (1/2 meses após terem descoberto a situação)”.
Entre Janeiro e Março de 2017, este médico e o colega de especialidade, Valdemar Porto, atenderam 700 doentes no Hospital da Horta. “Se multiplicarmos este número por 4 (trimestres) estamos a falar de 2.800 doentes, o que significa que cerca de um quarto da população da Horta (embora também tenham sido atendidos doentes de outras ilhas) foi ao dermatologista. Se transpusermos estes números para a realidade do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, que cobre um universo de 2 milhões de habitantes, quereria dizer que 500 mil pessoas tinham ido a esta consulta, quando a média anual lá é de 40 mil”, refere este especialista.
Tiago Mestre afirma que o único local público onde se faz Cirurgia de Mohz em Portugal é no Hospital Egas Moniz, para onde encaminha os doentes que vêm à Consulta no Faial
Separar o que é dermatologia de tratamento daquilo que é cosmética
E apesar de todas estas consultas, a lista de espera no Hospital da Horta ainda está em 3/4 semanas. Perante esta realidade, Tiago Mestre deixa um alerta, explicando que “se houver um excesso e um abuso, obviamente que os casos que são graves não vão ter um correto tratamento, porque se demora muito mais tempo a chegar a esses doentes”.
Tendo em conta que a Dermatologia é uma área “bastante pequenina”, este médico conhece vários colegas que trabalham noutros locais do país. E isso permite-lhe garantir que “a lista de espera no IPO do Algarve ou do Alentejo é muito superior à do Hospital da Horta”, que reputa de “normal”.
Este dermatologista refere que, relativamente à cirurgia de tratamento, “a lista de espera é pequena”; em relação à cirurgia de ambulatório (questões de cosmética), como é o caso de doentes que querem operar sinais, fibromas, etc, “a lista de espera está dentro da média nacional”. E remata: “Para casos benignos (de cosmética), esperar 2 meses acho que é um prazo muito razoável, e quando se trata de situações malignas é mais reduzido. Ainda esta semana operei doentes em espera há um mês”.
Tiago Mestre sustenta que, “a Dermatologia, sendo uma área altamente especializada, é que devia tratar os cancros cutâneos, porque tem uma capacidade de diagnóstico que as outras especialidades não têm”. E adianta que nem todos os dermatologistas fazem cirurgia como ele, “mas conseguem orientar para tratar”.
“É preciso saber quando é que o doente deve ir ao médico de família e este tem de avaliar o que é para tratar em termos de dermatologia de tratamento e em termos de cirurgia cosmética. Eu vejo dezenas de doentes que não vêm ao Hospital por um diagnóstico, mas para tirar um sinal, porque querem tirar o sinal ou porque o médico de família assim o entende. Os casos de cosmética não são urgentes e cada um custa cerca de 200 euros ao Hospital da Horta (preço da biopsia, do material médico, etc). Se tivermos 100 doentes que vêm ao Hospital tirar um sinal por uma questão de cosmética, estamos a falar de qualquer coisa como 20 mil euros, o que representa o vencimento anual de um médico. Daí, eu insistir tanto na necessidade de se selecionar o que é importante, e que deve ser tratado, daquilo que é secundário, e que também deve ser tratado, se tivermos capacidade de o fazer”.
20 casos de melanomas, por ano, nos Açores
Este especialista comentou os números que vieram a lume sobre São Jorge e diz que “as contas não batem certo”, tendo em conta que faz consultas naquela ilha.
Tiago Mestre lembra que, em termos de estatística, existem cerca de 20 melanomas (cancros de pele), por ano, nos Açores, “o que não deve ser motivo de alarmismo”. E com o intuito de estabelecer um paralelo – embora as realidades não sejam comparáveis – revelou que quando trabalhou em Inglaterra, havia 20 por semana.
Por isso, entende que, “por um lado existe alguma negligência por parte dos doentes em ir aos médicos de família para serem referenciados no tratamento a fazer e, por outro, às vezes há algum excesso de referenciação de certas situações que são menos importantes e que são, digamos assim, dermatologia cosmética, mas são referenciadas”. No dia em que decorreu esta Palestra – integrada na Náutica no Bar – Tiago Mestre tinha passado 12 horas no bloco operatório, apesar de estar de greve, o que é sinónimo de ter trabalhado “pro bono”, mas o objetivo foi precisamente o de não deixar os doentes à espera. E os casos de maior incidência traduziram-se em tumores que “eram praticamente a orelha toda do doente”. “Isto não tem 1 ou 2 semanas, tem meses; e o doente não foi ao médico de família nem foi referenciado ao Hospital, e a diferença é, basicamente eu conseguir operar com a minha técnica aqui, no Hospital da Horta, ou ter de referenciar ao IPO”.
Este dermatologista diz que “há aqueles cancros de pele mais comuns e, que, provavelmente cada um de nós vai vir a ter, devido à exposição crónica ao sol e ao facto de a longevidade ter aumentado mas, se juntarmos todos os cancros de todos os órgãos, como cancro de pele, de estômago, de mama, os carcinomas basocelulares são mais comuns do que esses todos e são muito menos badalados, por serem tão comuns e localmente invasivos, mas têm de ser tratados”. E conclui: “Logicamente que é diferente tratar algo que tem 5 ou 6 mm do que tratar quando tem 7 ou 8 cm”.
Cirurgia de Mohz: a mais especializada ao nível de cancro cutâneo
A Cirurgia de Mohz, “a mais especializada ao nível de cancro cutâneo”, em Portugal, e no que toca ao público, apenas é uma realidade no Hospital Egas Moniz. É por essa razão que este dermatologista do Hospital da Horta encaminha os casos mais graves para lá.
Se estivéssemos nos Estados Unidos ou no Reino Unido, onde Tiago Mestre esteve durante 2 anos, a Cirurgia de Mohz seria algo presente. Este especialista explica que “a diferença entre a cirurgia normal e a de Mohz tem a ver com a taxa de cura, que no último caso é de cerca de 99 por cento, ao passo que na cirurgia normal ultrapassa em pouco os 90 por cento.
A Cirurgia de Mohz “é uma técnica especial em termos de corte em que, basicamente o dermatologista que faz a cirurgia vê as lâminas ao microscópio e, se o cancro for positivo, tira mais um bocadinho e depois reconstrói essa parte na cirurgia plástica”, explica Tiago Mestre, que continua: “É um “gold standart”, ou seja, quando a pessoa tem um tumor altamente agressivo numa área cosmeticamente importante e sensível como o nariz, o olho ou o lábio, é o que se deve utilizar, mas em Portugal acabamos por não ter muitos cirurgiões de Mohz”.
Este especialista recomenda a Cirurgia de Mohz “em casos de recorrências, tumores altamente agressivos e quando surgem em áreas muito sensíveis”.
“Navegadores Solidários” agradecem apoios
Susana Rosa, Capitã da Equipa “Navegadores Solidários”, do Clube Naval da Horta, mostra-se satisfeita com os resultados alcançados até agora
No fim da Sessão de Sensibilização, funcionou um Bazar com produtos oferecidos pela Farmácia Corrêa, e as empresas faialenses Eduardo Caetano Sousa (armazenista e distribuidor de produtos farmacêuticos) e N. O. Frayão, Lda (produtos farmacêuticos). O objetivo foi angariar fundos para apoiar os doentes com maiores carências.
O Almoço Solidário programado para as 13 horas do próximo domingo, dia 14, no Pavilhão Náutico do CNH, tem também como finalidade obter receitas para este fim.
Susana Rosa, Capitã da Equipa “Navegadores Solidários, do Clube Naval da Horta, criada no âmbito do Projeto “Um Dia Pela Vida”, agradeceu a colaboração do médico Tiago Mestre, o contributo dos presentes e o apoio dos empresários que, “gentilmente”, acederam oferecer os brindes do Bazar.
Esta Dirigente congratulou-se pela forma como esta ação decorreu, pela adesão registada e pelo contributo angariado, sinal de que os Faialenses são, sempre, proactivos e solidários com esta causa, que é universal e que nos irmana no combate a um flagelo que não dá tréguas.
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