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João Carlos Fraga: um Amigo Universal

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Fonte:Google
Os Amigos, o Mar e a Música eram as paixões de João Carlos Fraga

“Ele era um Amigo Verdadeiro!” É por isso que o Auditório da Fábrica da Baleia, em Porto Pim, na cidade da Horta, esteve lotado na noite de 10 de Fevereiro último. O mote foi dado pela Associação Cultural Fazendo e foram muitos os que estiveram presentes e falaram do Homem sensível, do Amigo sempre disponível, do Navegador entusiasta, do Especialista em questões náuticas, do Faialense universal.  Renata Lima lembrou – muito oportunamente – que essa universalidade fica bem patente até nos próprios organizadores deste evento, que “nem sequer são do Faial”. A Associação Cultural Fazendo é responsável por uma publicação com o mesmo nome, com a qual João Carlos Fraga colaborava, e organizou, em Junho de 2016, (dias 9, 10 e 11), o “Festival Maravilha”, no ano em que se assinalava os 30 anos da Marina da Horta, a mais antiga dos Açores.

O ambiente criado e partilhado naquela sala – que se encheu de conteúdo e se reduziu de espaço – evocou e invocou João Carlos Fraga. Os excertos das entrevistas projetadas diziam-nos que ele estava mesmo ali, ao nosso lado, demonstrando aquele seu ar natural, sempre à vontade, próprio de quem sabe o que diz e o que faz.

Os Amigos, o Mar e a Música, eram as paixões de João Carlos Fraga, um homem franco e reservado, culto mas humilde, inteligente e sempre discreto. E aquele serão conseguiu congregar tudo isso: os (muitos) Amigos que falaram, riram e choraram; o Mar sempre presente em tudo o que bulia e até mesmo neste espaço: o seu Porto Pim; e a Música, que trouxe gratas memórias, canções e muita emoção.

“Os Amigos eram a Família dele” e isso percebeu-se muito bem quando as palavras deram lugar aos silêncios, entrecortados pelas lágrimas da saudade, testemunhas reveladoras de que João Carlos Fraga estará sempre presente!

Adélia Goulart – a alma daquela sessão destinada à partilha de vivências sobre o Amigo comum – espelhou bem a amizade que a ligava a João Carlos Fraga, que fez a sua derradeira viagem no dia 11 de Janeiro passado (nascido em 1946).

Incumbida de transmitir as mensagens de alguns amigos que não puderam estar presentes – entre eles Fátima Dart, a professora de Francês, e Jorge Dinis – recordou com os olhos da alma e de voz embargada, alguns dos (vários) bons momentos vividos ao longo de 60 anos de convívio muito próximo e muito leal.

“As esperas feitas aos carrões do leite que, após cumprirem a sua missão regressavam às freguesias rurais, eram a boleia perfeita da cidade até à Lajinha; as voltas à ilha por altura do Espírito Santo, numa camioneta pedida à tropa e as tertúlias de afeto realizadas no páteo onde, habitualmente, pontificava a simpática senhora Clotilde, mãe do João, sempre extremosa nos petiscos servidos aos amigos”, foram pedaços de história partilhados com todos, alguns ilustrados com fotografias da época, cedidas e legendadas por Adélia Goulart, que rematou: “Ele era delicado, assim como o seu corpo”.

A relação com o mar, foi sempre algo muito marcante na vida de João Carlos Fraga. Apostado em aproveitar ao máximo a aventura e a adrenalina de surfar as ondas, concebeu a primeira prancha de surf por estes lados – feita de criptoméria – a qual foi muito observada e apreciada nesta sessão evocativa.

prancha surf concebida por joao carlos fraga
A prancha de surf, de criptoméria, concebida por João Carlos Fraga

Sempre ávido por desbravar os horizontes que a ilha encerrava, aos 12 anos João começou a ter contacto com os navegadores estrangeiros que aportavam à Horta. E aprendeu, por si próprio, “que antes de ir para o mundo, o mundo vinha até nós”.

Sendo “o mar uma porta de entrada”, para este amante da vida marítima “a ultraperiferia acaba por ser melhor do que uma grande metrópole”, numa clara alusão à solidão que se pode sentir no meio de uma multidão.

E depois de termos a ilha dentro de nós, “o mar é uma estrada que faz ligação e não separação”. Podemos estar cá dentro e receber o mundo e podemos sair e levar a ilha.
João Carlos Fraga sempre esteve na ilha em contacto com o mundo, recebendo, apoiando e aconselhando os que chegavam e que se tornaram amigos para sempre. E foi com alguns desses aventureiros amigos que soltou amarras e atravessou o Atlântico, rumo a Barbados, em 1979. Uma experiência única para este investigador náutico, que retrata de forma bem visível a Horta marinheira, cosmopolita e muito hospitaleira, que a todos acolhe, abraça e irmana.

As “Aventuras de Baleeiros”, de Manuel Greaves, que leu aos 10/11 anos, marcaram-no de tal forma, que constituíram o seu “Moby Dick”.

Como especialista bem informado e conhecedor das questões náuticas, João Carlos Fraga – que fazia da pena um hobby – deixa algumas publicações e escritos, com preferência para o conto e a literatura de viagens. Para ele, “o blogue era um novo tipo de literatura. Uma maneira diferente de estar no mundo das letras”.

No alinhamento da noite, conduzido pela simpática Aurora Ribeiro, do “Fazendo”, Ana Veloso recordou as conversas que tinha com o vizinho e amigo, assim como Jonas, filho de Eduardina Rocha, que trouxe a saudade dos pais e um texto da mãe, que leu aos presentes. E sublinhou que, antes da Marina ser inaugurada – em 1986 – “já vinham iatistas à Horta”, Capital Oceânica do Iatismo. Por isso, “não foi a Marina que trouxe os iatistas, mas sim a Horta que fez com que viessem”. Ali, naquele que já foi intitulado como o maior museu de pinturas ao ar livre, foram feitas amizades para toda a vida, as quais são mais fortes do que a morte.

Jonas, que não sendo da geração de João Carlos Fraga, conseguia partilhar com o amigo não só a paixão pelo mar como também pela música, essa arte que tem o poder de nos fazer viajar e conhecer outras culturas, outros mundos e embarcar em estados de alma que nos transportam para outras dimensões e realidades.
Para os amigos de João Carlos Fraga, fica a a amizade; para os outros, a sua obra.

Francisco Gonçalves trouxe um filme de 1978, com desenhos feitos por João Carlos Fraga, “um amigo que estava sempre pronto a ajudar e a colaborar”, e Pedro Garcia recordou-o como “um exímio contador de histórias”.

A amiga Verónica memorou o quanto aprendeu com ele sobre cagarros – “cagarros não, que esses são os habitantes de Santa Maria!” – sobre cagarras, pois “ele dava sempre preciosas e novas informações sobre estas aves e sobre plantas” e ela só lamenta não ter captado mais as indicações daquele Amigo, “que tinha na mãe a pessoa mais especial da sua vida”.

Era um homem com grande amplitude de interesses, mas que se detinha no estudo do pormenor, como revela a atenção dada ao voo das borboletas, que vão e vêm e nos ensinam lições.

Tomás, um amigo do “Fazendo”, leu um pequeníssimo mas grande texto (inscrito num CD que Adélia Goulart emprestou) que se “aplicava na perfeição” a João Carlos Fraga e Margarida Madruga lembrou “o gosto que ele tinha pela halografia”.

Vítor Macedo aproximou-se do microfone para dizer que, “mesmo não tendo filhos, João Carlos Fraga foi pai”. E essa paternidade materializou-se na receção da primeira regata realizada até à Horta (vinda de Portsmouth, na Inglaterra) e que deu início à Semana do Mar, em 1975. Por isso, “ele é o pai da Semana do Mar e como padrinhos temos Luís Gonçalves e Madruga da Costa”.

Fernando Borges Sena, uma figura possante, mostrou que os homens também choram quando falamos de alguém que “é a referência de toda uma vida”, como era João Carlos Fraga. Em 1978, após o falecimento do pai (o médico faialense Gaspar Sena), Fernando Borges Sena vinha ao Faial e começou a falar com este que “viria a ser um grande amigo”. Foi por proposta dele que se fez membro do Ocean Cruising Club, “o que ainda hoje se mantém”. E quando a profunda comoção, que tinha tomado conta de Fernando Borges Sena o deixou por fim falar, notou que “pessoas como João Carlos Fraga nunca serão esquecidas”.

Comovida e enternecida pelo ambiente que se respirava nesta sessão, Isabel Fraga – sentada na primeira fila ao lado dos irmãos António, Fernando e José, havendo ainda a Fernanda – confidenciou que, após a morte do pai, João Carlos Fraga foi um pai para todos eles.

Já quase ao cair do pano deste serão, veio a música pela voz de Alexandre Gualdino e da filha Míriam. E ambos cantaram, sentidamente, duas mornas, “que João Carlos Fraga tanto gostava!” Mas, primeiro, Míriam – que também trouxe o calor do irmão que não pôde vir – revelou conhecer o João desde pequenina, a quem chamava “o avô Fraga”. E Gualdino relembrou que, desde que chegou ao Faial (há vários anos) vindo de Cabo Verde, logo encontrou um amigo no João. E foi no segundo tema – “Sodade” – acompanhado pela assistência – que o refrão se tornou realidade, com a jovem cantora a chorar e a dizer que chamava madrinha à mãe de João Carlos Fraga.

Na hora do anunciado brinde (preparado pelo “Fazendo”, assim como o lanche), Rui Coutinho, que veio propositadamente de São Miguel, de máquina em punho para tudo registar, convidou os presentes a erguerem o copo em memória do Amigo. Foi aí que Velmano Carvão lembrou que, “mais do que muitos feitos, o que verdadeiramente importa é o carácter da pessoa” e isso era algo muito marcante em João Carlos Fraga.

O João conseguiu reunir Amigos e Música junto ao Mar. Ali esteve não só a sua família de sangue como a outra, que ele escolheu. Ali esteve a saudade e sobretudo a vida, que será celebrada sempre que se fale de João Carlos Fraga, porque ele partiu, mas continua entre nós. Ali, no seu Porto Pim, onde o passado se fez presente; ali, onde o tempo continua vivo, preenchido por memórias de sempre, porque estas conseguem fugir à voragem do tempo e fazer morada no futuro.

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